Quando Rubens Ometto Silveira Mello decidiu profissionalizar a Cosan, há mais de uma década, a decisão foi recebida com ceticismo pelo mercado, que apostou que o empresário jamais daria autonomia aos executivos.

Mas a inovação funcionou: a holding diversificou seus negócios para além do etanol, gerou valor em todos eles, e fez o turnaround da antiga ALL — rebatizada de Rumo — também contra todas as apostas.

Agora, a Cosan vai passar por um novo experimento: a primeira sucessão deste time de gestão. 

A companhia anunciou agora há pouco que o CEO Marcos Lutz, no cargo há dez anos, vai passar o comando a Luis Henrique Guimarães, que hoje lidera a Raízen Energia e a Raízen Combustíveis, ambas joint ventures com a Shell.   

Lutz vai deixar o conselho da Raízen mas manterá seu assento no board da Cosan e continuará envolvido full time com o grupo.

Na Raízen, Luis Henrique será sucedido por Ricardo Mussa, o atual vp executivo de logística, distribuição e trading da companhia. Outro veterano do grupo, Mussa já foi presidente da Radar e da Moove, e está na Raízen desde 2015.
 
A companhia também anunciou que o vice-presidente jurídico, Marcelo Portela, que está ao lado de Rubens desde quando a Cosan era apenas uma colcha de usinas — e cujo pai também foi braço-direito de Rubens — vai deixar sua posição executiva depois de três décadas na companhia, mas continuará nos conselhos do grupo.  Ele será substituído pela atual diretora jurídica, Maria Rita Drummond, na Cosan há mais de 10 anos.

As mudanças — que têm efeito a partir de 1 de abril — são uma transição estruturada num grupo que fez a transformação improvável de empresa tipicamente familiar para uma que não depende de um ou outro executivo. 

Desde que Lutz e o CFO Marcelo Martins se juntaram a Portela — formando o triunvirato de confiança de Rubens — a Cosan multiplicou seu chamado ‘EBITDA administrado’ (a soma do EBITDA de todas as companhias controladas pelo grupo) em mais de 20x. 

Muito do sucesso veio nos últimos cinco anos, quando o negócio da Rumo ficou de pé, a Comgás começou a gerar caixa, a Raízen passou a performar melhor que os concorrentes, e a Moove — a empresa de lubrificantes que antes mal entrava na conta dos analistas — foi avaliada em R$ 2 bilhões num investimento do CVC Capital Partners.  Com tudo isso, a Cosan tem recomprado sua ação furiosamente desde 2018. 

Segundo uma fonte da empresa, Lutz vai passar mais tempo nos comitês de estratégia, o que inclui considerar investimentos em novos ativos que possam fazer sentido para o grupo, seja por meio de posições de controle ou em parceria com players estratégicos e financeiros, o tipo de sociedade em que a companhia tem tido sucesso. 

A Cosan anunciou este mês que está aportando a Comgás numa nova holding para investir em ativos de gás natural.  Essa holding deve ser responsável, por exemplo, pelo eventual investimento da Cosan na Rota 4, o gasoduto que conectará a Bacia de Santos ao mercado de São Paulo, e na comercializadora de gás recentemente adquirada pela empresa.

Na semana passada, a Reuters noticiou com exclusividade que a Raízen está negociando um consórcio com a gestora de fundos Global Infrastructure Partners (GIP) para comprar refinarias que a Petrobras colocou à venda. 

A ação da Cosan subiu 89% nos últimos 12 meses, e a companhia vale R$ 31 bilhões na B3.