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O Bradesco está de volta ao topo do mercado brasileiro de renda fixa.
Segundo o ranking da ANBIMA referente ao primeiro semestre, o banco liderou as emissões locais depois de movimentar cerca de R$ 62 bilhões em operações, alcançando um market share de 28%.
Os números representam uma virada importante: o Bradesco não ocupava a primeira posição desde 2016.
Felipe Thut, diretor de renda fixa e produtos estruturados do Bradesco BBI, diz que, mais do que recuperar a liderança, o banco aumentou significativamente sua participação em um mercado que praticamente triplicou de tamanho desde a pandemia.
Quando Thut assumiu a área no fim de 2024, o banco tinha 15% desse mercado. A participação subiu para 18% em 2025 e chegou agora a 28%.
“Mais do que ficar em primeiro lugar, queríamos que o nosso market share refletisse a posição do Bradesco no mercado brasileiro,” disse Thut. “A participação anterior não representava a importância do banco para as companhias.”
A mudança aconteceu em meio a uma transformação mais ampla do sistema financeiro brasileiro.
Há cinco anos, as emissões locais de renda fixa movimentavam cerca de R$ 430 bilhões – no ano passado, chegaram a R$ 740 bilhões.
À medida que esse mercado cresceu, os instrumentos de mercado de capitais passaram a financiar as empresas em uma escala cada vez maior, ocupando parte do espaço que antes pertencia quase exclusivamente ao crédito bancário.
O movimento obrigou os bancos a se adaptarem. Em vez de apenas emprestar recursos do próprio balanço, eles passaram a combinar crédito bancário, emissões no mercado e estruturas híbridas.
“Hoje, um dos maiores concorrentes do Bradesco é o próprio mercado de capitais,” disse Thut. “Se não evoluíssemos para esse formato, estaríamos perdendo uma parte do mercado de financiamentos.”
Reestruturação estratégica
A reação do Bradesco começou no fim de 2023, quando Marcelo Noronha assumiu como CEO e Bruno Boetger passou a comandar o banco de atacado.
Uma das decisões foi dividir a estrutura do banco de investimento. André Moor ficou responsável pelas áreas de M&A e ECM, enquanto Thut assumiu a nova diretoria de renda fixa com uma missão clara: recuperar a representatividade do Bradesco neste mercado.
Sob sua responsabilidade, a Renda Fixa é composta pelas áreas de Renda Fixa Local, Renda Fixa Internacional, Project Finance e Structured Finance.
O primeiro passo foi reforçar a equipe.
Entre a chegada de Thut à diretoria e o fim deste ano, o time de renda fixa praticamente terá dobrado de tamanho, passando de cerca de 40 profissionais para 70 pessoas.
Thut também importou para a renda fixa uma lógica tradicional do investment banking: a especialização por setores.
Em vez de dividir a cobertura apenas pelo tamanho das empresas, o Bradesco passou a ter profissionais especializados em áreas como energia, saúde, infraestrutura, agro e instituições financeiras.
A ideia é que cada banker conheça não apenas as necessidades de um cliente, mas também as operações realizadas por seus concorrentes e as estruturas que vêm sendo utilizadas em seu setor.
Ao mesmo tempo, o banco criou uma célula com cinco profissionais dedicada ao middle-market, formado por companhias com faturamento entre R$ 50 milhões e R$ 1 bilhão.
Segundo Thut, muitas dessas empresas estão acessando o mercado de capitais pela primeira vez. Embora as operações sejam menores, o universo potencial inclui milhares de grupos econômicos – e já é o segmento que mais cresce dentro da área de renda fixa do BBI.
Balanço como vantagem competitiva
A reorganização também aproximou o banco de investimento das áreas de crédito, distribuição, tesouraria e cobertura comercial do Bradesco.
Na área de crédito, os profissionais passaram a acompanhar as conversas com os clientes desde o início das operações, reduzindo o tempo necessário para analisar e aprovar os financiamentos.
Um dos exemplos foi a aquisição de uma fatia da FS Bio pela Amaggi: o Bradesco financiou sozinho os R$ 3,5 bilhões da transação.
Segundo Thut, o deal evidencia o novo momento do Bradesco: foram apenas sete dias entre a primeira conversa com a companhia e a aprovação do cheque.
“Quando gostamos da operação, não temos receio de fazer cheques grandes,” disse Thut. “Estivemos com o cliente e, em uma semana, dissemos que tínhamos apetite para financiar o valor inteiro.”
A capacidade de usar o próprio balanço se tornou especialmente importante nos períodos de maior volatilidade.
Em março e abril, depois de eventos de crédito que afetaram o mercado, os investidores reduziram as compras e os spreads aumentaram. Muitas empresas que não precisavam emitir imediatamente decidiram adiar suas operações à espera de condições melhores.
Nesses momentos, diz Thut, o Bradesco consegue financiar diretamente os clientes ou adquirir uma parcela das emissões para revendê-la gradualmente.
Em uma debênture de R$ 2 bilhões, por exemplo, o banco pode distribuir R$ 1 bilhão no lançamento e manter a outra metade em seus livros. Os títulos são vendidos posteriormente para investidores institucionais e pessoas físicas, por meio de segmentos como o Private Banking e o Principal.
“Por ter um balanço muito grande, o Bradesco consegue atender os clientes tanto nos momentos bons quanto nos períodos mais difíceis do mercado,” disse Thut.
A proposta é funcionar como um one-stop shop: estruturar a operação, coordenar a emissão, oferecer garantia firme, distribuir os papéis e, quando necessário, usar o balanço do banco.
Essa integração apareceu em algumas das maiores operações realizadas no primeiro semestre.
O Bradesco liderou um FIDC de R$ 5,5 bilhões da CloudWalk – o maior emitido no ano e também o maior já realizado pela fintech. Além de liderar o sindicato, o banco atuou como gestor, administrador e custodiante do fundo.
O BBI também participou do financiamento de US$ 850 milhões contratado pela Acelen para um projeto de biocombustíveis. A operação reuniu 12 instituições, e o Bradesco foi o único banco privado brasileiro no sindicato, ao lado de bancos estrangeiros e instituições de desenvolvimento.
O Bradesco também vem buscando criar estruturas alternativas para empresas que precisam investir, mas não encontram uma janela adequada para emitir debêntures.
Uma delas é a antecipação de recebíveis de contratos de energia. Uma companhia que tenha uma receita contratada pelos próximos 10 ou 15 anos pode ceder ao banco parte desses recebíveis e receber os recursos antecipadamente para financiar seu capex.
Na prática, o banco antecipa hoje o valor de uma parcela das receitas futuras e passa a receber diretamente os pagamentos previstos no contrato.
“É uma alternativa para a empresa que poderia emitir uma debênture, mas está diante de um mercado mais volátil,” disse Thut. “Ela pode descontar os recebíveis e levantar os recursos necessários para fazer seus investimentos.”
O próximo ciclo de crescimento
Para o segundo semestre, o BBI já observa uma retomada das emissões não incentivadas, depois da retração vista nos meses anteriores.
As principais emissões devem continuar vindo de infraestrutura, especialmente dos setores de energia, saneamento e rodovias, que têm compromissos de investimento de longo prazo.
Mas Thut diz que o Bradesco também está aumentando sua atuação em novas frentes, como data centers e torres de telecomunicações.
O banco começou a financiar empresas desses segmentos antes que os data centers se tornassem uma das principais teses de investimento do mercado. Com isso, construiu uma participação relevante em um setor que deve demandar volumes crescentes de capital nos próximos anos.
Na visão do executivo, a participação atual do banco no crédito privado já reflete de maneira mais adequada o tamanho e a representatividade do Bradesco.
Mas o desafio atual, na visão do executivo, é acompanhar o crescimento do mercado, manter a qualidade do atendimento e continuar presente na maioria das operações do País.
“A liderança não é um ponto de chegada,” disse Thut. “O que ela mostra é que estamos servindo melhor os clientes, com mais estrutura, mais soluções e mais operações. A ideia é continuar assim.”
Na foto acima: Leandro de Angeles (Project Finance), Ricardo Catelli (Structured Finance), Felipe Thut (Diretor do BBI Renda Fixa), Marina Milanez (Renda Fixa Local) e Gilberto Nakayasu (Renda Fixa Internacional).






