Julio Ribeiro, cuja agência produziu campanhas que se incorporaram à cultura e ao linguajar brasileiros — como ‘Bonita camisa, Fernandinho’, ‘Não é uma Brastemp’ e ‘Nossos japoneses são mais criativos que os deles’ — morreu hoje, marcando o ocaso da geração dourada que profissionalizou a propaganda brasileira e a elevou mundialmente.

Julio sofreu um AVC fatal nesta madrugada.  Tinha 84 anos.

Washington Olivetto disse que, por sua visão analítica e compreensão dos negócios, o talento de Julio era comparável apenas ao lendário Jay Chiat, que introduziu a disciplina de planejamento nas agências nos EUA.

 
Nizan Guanaes disse que Julio “foi o publicitário mais respeitado pelos homens de negócio porque (ele mesmo) era um espetacular homem de negócios.
 
Mas o homem de negócios era, também, um homem de princípios.  Ao criar a Talent em 1980, Julio prometeu que jamais aceitaria fazer campanhas de cigarro, bebidas alcoólicas… ou do Governo. Numa entrevista à repórter Sonia Racy, explicou seus motivos: “Os três fazem mal à saúde.” 
 
Disse que a decisão lhe custaria muito dinheiro, “porque são clientes muito ricos”.  E falou de sua ojeriza a campanhas eleitorais no que hoje soa como um vaticínio sobre o destino de alguns marqueteiros políticos:  “No que diz respeito à política, eu sigo um lema: “Quem dorme com cachorro acorda com pulga”.
 
Julio formou-se em Direito na USP, mas trocou a banca pela publicidade quando descobriu que o ambiente de trabalho nas agências era mais alegre e divertido, regado a coquetéis no fim da tarde. Mas ao contrário de muitos de seus pares, adotava um estilo low profile, recusando inclusive convites para ser jurado em festivais como Cannes, o badalado Oscar da publicidade.
Nunca quis ser gigante. Preferia ter poucos e bons clientes, que atendia num elegante escritório na esquina da Avenida Juscelino com a Faria Lima, em São Paulo. 

Em meio a uma série de aquisições de agências brasileiras por grupos estrangeiros, o francês Publicis adquiriu 49% da Talent, em 2010, por US$ 110 milhões, no que foi considerado uma das maiores ‘valuations’ do setor. 

Trabalhador incansável, Julio comandou a agência até 2013, quando o controle passou para as mãos da Publicis — que depois rebatizou a agência de Talent Marcel, hoje a quinta do País. 

Mas nem a idade avançada ou a carreira consagrada foram suficientes para manter Julio no sofá vendo TV. Negociou a abreviação de seu “non-compete agreement” com a promessa de não seduzir os clientes da Talent e abriu, no ano passado, uma consultoria de planejamento, a Julio Ribeiro Planejamento (JRP). 

Julio deixa Thea, sua primeira namorada e única esposa, dois filhos, quatro netos, e um mundo um pouco menos criativo.

 
Veja, abaixo, o depoimento de Washington Olivetto: