As ações das empresas de software estão pressionadas há dias, com o mercado tentando responder uma questão existencial: a AI vai tornar gigantes como SAP, Salesforce e Oracle obsoletas, ou elas vão acabar se beneficiando da nova tecnologia?  

Por enquanto, o mercado tem apostado na obsolescência, particularmente das empresas de software as a service (Saas) – as provedoras de aplicações em nuvem de recursos como customer relations management (CRM), enterprise resource planning (ERP) e data analytics.

A mais nova rodada de pânico sobre o futuro do setor aconteceu hoje, quando a OpenAI e a Anthropic apresentaram novas soluções que ameaçam substituir atividades inteiras de empresas de SaaS ou relegá-las a um papel secundário. 

O ETF Expanded Tech-Software Sector (IGV), composto por cerca de 115 ações do setor de software, já cai 12% nos últimos cinco dias e acumula desvalorização de 24% no ano. Desde sua máxima histórica em setembro, o tombo supera 30%.

As perdas no setor de software e IT services na última semana já se aproximam de US$ 1 trilhão.

Algumas das quedas mais expressivas no ano são a Oracle (29%), Salesforce (28%), Adobe (23%) e SAP (18%). O selloff não poupou nem mesmo a Microsoft (17% de recuo no ano), uma Big Tech com negócios extremamente diversificados.

Empresas de serviços financeiros e jurídicos também estão sendo castigadas. A ação da Thomson Reuters caiu 6% hoje e mergulha 30% no ano. Outro exemplo: a RELX, dona da base de dados e analytics LexisNexis, perde 28% no ano.

“Estamos agora em um ambiente onde o setor de software não é apenas considerado culpado até que se prove o contrário, mas também está sendo sentenciado antes do julgamento,” disse o JP Morgan.

Segundo os analistas do banco, as principais preocupações dos investidores estão ligadas a questões sobre o impacto de longo prazo, e “isso está além do escopo das previsões padrão de três anos e das perspectivas de médio prazo de muitas empresas, tornando difícil argumentar contra ou refutar essa preocupação.”

“Resultados melhores do que o esperado não são mais suficientes para convencer o mercado do contrário, a menos que possam demonstrar irrefutavelmente que a AI seja um fator favorável ao crescimento, em vez de um obstáculo a longo prazo,” disse o JP Morgan.

Para o banco, “a natureza da perspectiva pessimista para o setor de software é multifacetada e contém vários riscos distintos (risco de canibalização por licença, nova concorrência nativa de AI, empresas que constroem suas próprias soluções e risco de transição do modelo de receita), o que torna a defesa ainda mais difícil, pois há múltiplas frentes.”

Na dúvida, a reação é vender – e o movimento impactou também o mercado de dívida e as ações de firmas de private equity que são grandes investidores em companhias de software, como Apollo, TPG e KKR.

Com o avanço da AI, muitos desses serviços poderão ser feitos por agentes customizados, a partir dos modelos e ferramentas de empresas como a Anthropic e a OpenAI – o que coloca em risco boa parte da tradicional indústria de software.

O pânico do mercado já ganhou as alcunhas de ‘SaaSpocalypse’ e de ‘BlackBerry moment’. As empresas podem até sobreviver, mas o valuation será outro, diz a narrativa hoje hegemônica.

A capitulação no setor começou com o lançamento do Claude Work, uma ferramenta da Anthropic que, uma vez instalada, pode acessar dados e realizar automaticamente operações complexas, como analisar base de informações e preencher formulários.

Hoje a Anthropic divulgou seu mais recente modelo de linguagem, o Opus 4.6. O sistema foi aprimorado para realizar análises financeiras e criar planilhas e apresentações.

Também hoje, a OpenAI lançou a Frontier – uma plataforma para clientes corporativos desenvolverem e gerenciarem agentes de inteligência artificial.

A ferramenta poderá rodar nos sistemas que as empresas já utilizam, sem haver, portanto, a necessidade de substituir os fornecedores de serviços de armazenamento e gerenciamento de dados. Mas o sistema da OpenAI poderá cuidar da execução do fluxo de trabalho de madeira automatizada – reduzindo drasticamente a necessidade de funcionários e atingindo o modelo das empresas de SaaS, que precificam seus serviços pelo número de usuários dentro de uma companhia. 

Todas as grandes empresas de tecnologia estão desenvolvendo seus próprios sistemas e agentes de AI – mas, como sempre nas rupturas, nem sempre os incumbentes mantêm a liderança.

“Até o final do ano, a maior parte do trabalho digital nas empresas será dirigida por pessoas, mas executada por grupos de agentes de AI. Isso já é verdade para a programação e acontecerá em muitas outras áreas também,” disse a chefe de aplicações da OpenAI, Fidji Simo, segundo a Barron’s. “Isso é muito importante. Significa que nosso trabalho agora é facilitar a implementação pelas empresas dos agentes de AI, para desbloquear esse valor.”

No mercado, a volatilidade levou à suspensão de emissões de dívida no setor de software nos últimos dias, segundo a Goldman Sachs.

“O mercado secundário, como consequência, vendeu posições,” disse o banco. “O mercado de empréstimos para software e o setor de tecnologia mais amplo recuou as baixas vistas em abril de 2025” – o mês em que os mercados globais foram impactados pelo tarifaço de Donald Trump.

O selloff resvalou em companhias de todo o mundo, como a Totvs no Brasil e as indianas Infosys e Tata Consultancy Services.

“A tese da morte do software faz sim sentido em boa parte dos casos,” Leonardo Otero, sócio da Arbor Capital, disse ao Brazil Journal. “Os valuations setoriais eram sim, muito, muito altos. E nesse pessimismo o mercado está socando tudo. Chegou a hora de separar o joio do trigo.”

O ‘joio’ são as companhias que não dão lucro mas tinham valuations elevados com base na perspectiva de lucros futuros – algo agora profundamente em xeque.

Para Otero, a queda do setor apresenta oportunidades de compra, porque muitas empresas bem posicionadas e diversificadas – como Microsoft e SAP – foram castigadas desproporcionalmente.

“Se você pensar na SAP, que é uma empresa de ERP, que é o software mais importante do back office de companhias como Apple e Walmart,” afirmou. “Esse software é quase impossível de ser substituído pela AI.”