O crédito ao consumidor no Brasil está num “equilíbrio instável” – que, em qualquer outra economia comparável, já teria gerado sinais “explícitos” de stress, disse a JGP numa carta enviada hoje a clientes.
“Vemos este como o maior risco micro do País, pela magnitude e pelo fato de ser transversal, com potencial de impactar diferentes setores,” Fabio Fonseca, um sócio e gestor dos fundos de ações da JGP, disse ao Brazil Journal.
Os números que preocupam a gestora de André Jakurski são principalmente aqueles relacionados ao comprometimento da renda das famílias.
O serviço da dívida – que engloba amortização e pagamento de juros – correspondia a 29% da renda média disponível no Brasil em dezembro, o último dado público. É o maior percentual entre os países pesquisados pela gestora (veja o gráfico abaixo).

O indicador inclui o serviço da dívida imobiliária – o que explica o elevado comprometimento da renda nos países desenvolvidos que aparecem logo depois do Brasil na lista (Noruega, Canadá, Austrália).
Mas nesses mercados a situação não é tão grave, porque “o crédito imobiliário, além de contar com colateral de alta qualidade, normalmente substitui o aluguel por uma prestação de financiamento, não sendo, portanto, um comprometimento de renda inteiramente novo,” diz a carta assinada por Fonseca e Pedro Romeiro, outro sócio e analista de financials da JGP.
Além de alto, o comprometimento da renda cresceu de forma acelerada no Brasil. De 2019 a 2025, aumentou 6,2 pontos percentuais, a maior variação da amostra.
Em segundo lugar, aparece a Noruega, com uma alta de 5,4 pontos – explicada pela alta dos juros que atinge em cheio os financiamentos imobiliários, já que a maior parte dos contratos têm taxas variáveis.
Depois da Noruega, os aumentos não passam de 1 ponto (Austrália 0,9 ponto, Finlândia, 0,6, e Canadá 0,3).
O Brasil também teve a maior expansão da amostra nos últimos 12 meses, de 1,7 ponto. Em seguida aparecem os EUA, com 0,2 p.p., enquanto os demais países tiveram uma pequena retração, incluindo a Noruega, de -0,2 p.p.
Por que este crescimento do crédito ainda não gerou impactos mais severos no consumo, na deterioração das carteiras ou na originação de empréstimos? Para a gestora, pode ser questão de tempo.
Uma hipótese levantada pelos autores é o fato de os últimos anos terem sido um período de expansão da renda e queda do desemprego – o que pode ter mitigado ou diferido os problemas.
“Estabilidade prolongada gera fragilidade acumulada; a fragilidade não se manifesta em todo ciclo, mas quando se manifesta costuma surpreender quem se acostumou à estabilidade que a precedeu”, diz a carta.
Os autores citam a teoria da instabilidade financeira do economista Hyman Minsky, segundo a qual “estabilidade produz instabilidade”.
“Minsky era cuidadoso em não fazer previsões pontuais. A hipótese não diz quando algo vai dar errado. Diz apenas que, à medida que a estabilidade se prolonga, o custo de descobrir a fragilidade se acumula.”
A solução, na visão dos autores, não será “suave”. Uma saída seria via aumento de renda – “mas o que vimos nos últimos anos foi um aumento do comprometimento mesmo com a expansão da renda, porque existem incentivos ao endividamento,” disse Romeiro.
Uma restrição do crédito por parte dos bancos pode gerar um ciclo difícil de retração do consumo e alta da inadimplência. Cortes dos juros poderiam ajudar, mas as projeções indicam quedas pequenas até o próximo ano.
Com esse diagnóstico, a JGP zerou ou reduziu “de forma material” a exposição aos cases que vê como sensíveis a problemas maiores no mercado de crédito – e, se decidir voltar a investir, vai demandar descontos maiores.
A casa vendeu ações de bancos digitais e de varejistas como Renner e Localiza, e diminuiu sua posição em Itaú. “O objetivo não é ter uma carteira imune ao consumidor endividado, mas decidir caso a caso. Ainda temos SmartFit, por exemplo, porque a empresa tem uma operação relevante fora do Brasil,” disse Fonseca.






