BARRETOS – Assim como todos os executivos do setor frigorífico, Fernando Queiroz, o CEO da Minerva Foods e membro da família controladora, foi surpreendido por uma postagem de Donald Trump nos últimos dias.

Nela, o presidente americano anunciava a suspensão temporária por 90 dias das tarifas aplicadas acima da cota de importação para 300 mil toneladas de carne bovina magra – ideal para a produção de hambúrgueres. 

O que se descobriu depois é que a notícia era ainda melhor.

“Os países que serão beneficiados por essa nova cota são exclusivamente Brasil e Paraguai,” Queiroz disse na sexta-feira em um evento para analistas de mercado. 

Minerva

A suspensão da cota, válida entre setembro e novembro, busca aumentar a oferta no mercado americano e ajudar a conter os preços da carne, que estão em níveis recordes.

Essa nova janela para a carne bovina brasileira se abre justamente quando a China está prestes a fechar uma porta.

As exportações brasileiras de carne bovina para o gigante asiático já consumiram mais de 90% da cota anual de importação sem sobretaxa estabelecida pelo governo chinês para 2026. O limite é de 1,106 milhão de toneladas.

Quando a cota for atingida, a carne que exceder esse volume estará sujeita a uma sobretaxa de 55%, além da tarifa de importação de 12%. 

Os primeiros sinais de que a cota está próxima do teto já apareceram: as exportações brasileiras de carne bovina in natura para a China caíram 47,8% em volume em julho, para 82,7 mil toneladas. Em receita, o recuo foi de 40% para US$ 529 milhões.

A China se tornou o principal motor da expansão das exportações brasileiras de carne bovina. Em 2025, os embarques atingiram recorde histórico, tanto em volume quanto em valor. Foram 1,6 milhão de toneladas, gerando uma receita de US$ 8,9 bilhões.

“Cotas e tarifas viraram uma nova realidade que faz com que a gente realmente esteja diversificado. E a cada dia é uma surpresa e exige que a gente redirecione nossa produção,” disse Queiroz. 

Além do Brasil, que concentra 57% da originação de sua carne, a Minerva tem operações na Argentina, Paraguai, Uruguai, Chile, Colômbia e Austrália. A forte presença na América do Sul ajudou a empresa no fornecimento para EUA e China.

Agora, a Minerva e seus concorrentes acompanham de perto a abertura de mercados como Japão e Coreia do Sul. 

A geopolítica vem movendo toda a indústria da carne e tem incentivado a companhia a adotar estratégias defensivas. 

No primeiro semestre, a Minerva consumiu cerca de R$ 1,2 bilhão a R$ 1,3 bilhão de caixa, justamente por causa da formação de estoques e do aumento do capital de giro. 

Hoje o estoque da companhia é R$ 5,3 bilhões. “Se a gente zerar metade desse estoque, a gente vai estar gerando R$ 2,7 bilhões, que é mais do que normalmente a gente vende ao longo do segundo semestre. Dado o custo do dinheiro, não faz sentido carregar esse estoque,” disse o CFO Edison Ticle.

Apesar da queima de caixa no primeiro semestre, a Minerva já acumula geração positiva nos últimos 12 meses. Segundo Ticle, foram R$ 600 milhões de caixa livre no período, mesmo com o pagamento das despesas financeiras e do capex, que ainda estava elevado em razão da aquisição das plantas da Marfrig. 

Com a normalização do investimento para um nível próximo ao capex de manutenção, o CFO disse que a companhia espera gerar mais de R$ 1 bilhão de caixa livre no ano de 2026.

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“Teve destruição de caixa no primeiro semestre, mas foi consciente,” disse Ticle. “A gente sabe o que está fazendo; a gente está investindo na operação e temos muita convicção que no segundo semestre esse investimento todo vai voltar.”

Outra obsessão da companhia é reduzir o endividamento. 

“Desalavancar, desalavancar, desalavancar e … desalavancar, para não esquecer,” Ticle disse em uma conversa com repórteres depois da apresentação aos analistas.  

A alavancagem da Minerva chegou a 3,7x em 2024 após a aquisição dos ativos da Marfrig, e desde então vem caindo com a captura de sinergias e a geração de caixa. 

Hoje está em cerca de 2,9x, um nível que, segundo Ticle, ainda é elevado diante do nível da Selic. Para ele, mais importante que estabelecer um número ideal de alavancagem é avaliar quanto do EBITDA é consumido pelo pagamento de despesas financeiras. 

A companhia trabalha com o limite de 35% do EBITDA. Pelas taxas de juros atuais e esperadas para os próximos dois anos, isso implicaria uma alavancagem máxima aceitável de 1,7x.

Por isso, a Minerva reduziu temporariamente a distribuição de dividendos: em vez dos 50% do lucro líquido quando a alavancagem está abaixo de 2,5x, distribuirá apenas o mínimo legal de 25% até que consiga reduzir o endividamento. 

Até lá, a companhia continuará a tourear um dos momentos mais complexos para a indústria frigorífica.

A ação da Minerva cai 35 % em 12 meses. A empresa vale R$ 3,9 bilhões na Bolsa.