PARIS – É uma da tarde em Saint-Germain-des-Prés, um dos bairros mais emblemáticos desta cidade. Entre o aroma de café e o vaivém dos turistas, uma voz bem-humorada corta o ar: “Ça y est (Pronto!) Marine Le Pen não é mais racista!”, “Agora é oficial: Donald Trump comprou a Córsega!” ou ainda: “A França continuará francesa, mas com imigrantes!”
Quem grita é o paquistanês Ali Akbar, de 71 anos.
Esguio, de boina e óculos, e com os jornais sob o braço – essencialmente o Le Monde nos dias de hoje – ele é o último jornaleiro “à criée” (o ambulante que grita as notícias) na Cidade Luz. Akbar não é só um vendedor de papel; é um pedaço da alma de uma Paris que ainda sobrevive ao mundo digital.
Esta semana, sua persistência e carisma foram coroados em um momento histórico: o Presidente Emmanuel Macron o condecorou como Cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito, em reconhecimento aos serviços prestados à cultura e à identidade de Paris.
Nos anos 2000, Macron era um estudante na lendária Sciences Po que convidava Akbar para tomar um café no não menos lendário Café Basile.
Durante a cerimônia, no Palácio do Eliseu, o chefe de Estado disse a Akbar:
“O francês tornou-se a sua língua. O senhor aprendeu a brincar com ela, assumindo, assim, uma forma de irreverência tipicamente francesa,” disse Macron, antes de completar com um trocadilho afetuoso: “O senhor carregou, por assim dizer, o mundo (Le Monde) nos braços, e a França no coração.”
Akbar recebeu a medalha – e manteve o espírito zombeteiro: “É uma honra incrível… mas onde está o meu cavalo?”, perguntou, trazendo o palácio abaixo.
A história de Akbar é uma epopeia de superação. Nascido em 1954 nos arredores de Rawalpindi, no Paquistão, conheceu o trabalho forçado ainda criança. Aos 17, fugiu em um navio cargueiro e desembarcou em Rouen, no noroeste da França. Era 1973.
Sua vida mudou ao conhecer o jornalista Georges Bernier, o co-fundador dos jornais satíricos Hara-Kiri e Charlie Hebdo, que o incentivou a vendê-los nas ruas.
Akbar conta ter cruzado com inúmeros estudantes que, desde então, tornaram-se ministros, deputados e até presidentes. Sem entender inicialmente a ironia subversiva francesa, ele aprendeu o idioma nas calçadas do Quartier Latin, transformando a paródia política em sua marca registrada.
Para os moradores, ele é uma instituição. Vincent Marra, um pianista que mora no bairro desde os anos 60, testemunha essa presença:
“Conheço o Ali desde os meus 16 anos, quando trabalhava no restaurante dos meus pais. Ele passava diariamente, sempre dinâmico. Hoje tenho 61 anos e ele continua lá, como no primeiro dia. Ele faz parte da família de todos os comerciantes daqui.”
A rotina exige vigor. Akbar trabalha sete dias por semana e anda cerca de 15 quilômetros por dia, a pé ou de bicicleta. Nos anos 90, chegava a vender mil exemplares por dia; hoje, celebra quando vende trinta. O lucro de € 50 por dia mal complementa sua pequena pensão, mas seu motor é o contato humano: “Continuarei enquanto tiver forças. O mundo precisa de alegria.”
Nem tudo é dinheiro.
Apesar de viver na França há mais de meio século e de ter criado cinco filhos franceses, Ali Akbar ainda aguarda seu passaporte. Honrado pela República, ele sente que a cidadania oficial seria o capítulo final perfeito. Como observou Macron, Akbar é “mais francês do que muitos franceses, um exemplo de integração que nos orgulha.”
Enquanto o passaporte não chega, o velho jornaleiro volta a seu palco nas ruas da Rive Gauche. Respira fundo, ajeita os jornais e entra em cena, provando que o caos do mundo moderno sempre pode ser remediado com uma manchete inventada e um sorriso sincero. Mas esta semana a manchete foi ele.











