Em 1988, aos 24 anos, Adriana Varejão exibia pela primeira vez sua obra “Azulejão” na galeria Thomas Kohn, no Rio de Janeiro.

De lá para cá, sua carreira se desenvolveu de forma meteórica, incluindo participações em 94 e 98 na Bienal de São Paulo.

A carioca se transformou em uma das artistas mais conceituadas no Brasil e no mundo, integrando os acervos do Guggenheim, Met e Tate. Desenvolver uma carreira internacional aos vinte e poucos anos – inserida em coleções privadas e museus importantes antes de se consolidar no país onde produzia – é algo raríssimo, ainda mais na década de 90.

Hoje com tantas feiras internacionais e o surgimento dos ‘on-line viewing rooms’, os artistas estão regularmente expostos aos colecionadores e museus de todo o mundo – mas ainda assim, poucos fazem parte do time oficial das grandes galerias.

Adriana é, por exemplo, a única artista sul-americana representada pela Gagosian, que tem 16 espaços espalhados pelo planeta e cuida de Damien Hirst e Richard Serra, entre outros pesos pesados.

Com alta demanda por suas obras fora do País, muita coisa nunca chegou a ser exibida por aqui. Com o intuito de suprir essa lacuna e fazer a mostra mais abrangente em quase 40 anos de carreira, a Pinacoteca de São Paulo abrirá no próximo sábado a mostra Adriana Varejão: Suturas, Fissuras e Ruínas.

Parênteses: A obra “Anjos” (1988), que integra o acervo do museu Stedelijk em Amsterdã, inicialmente não seria enviada em função da pandemia. Mas uma campanha nas mídias sociais para que o museu liberasse a obra deu certo, e a peça histórica desembarcou em São Paulo semana passada.

Jochen Volz, o curador-chefe da exposição, disse ao Brazil Journal que foram quatro anos de preparação para mostrar, de forma ampla, a artista que reflete sobre a história visual do Brasil, nossas tradições e a influência colonizadora europeia. 

Abrir a exposição em 2022 foi proposital – ano do bicentenário da Independência e do centenário da Semana de Arte Moderna, o que aumentará a potência da reflexão e compreensão dos temas abordados por Adriana.

Volz conhece bem a artista: ele era o diretor artístico do Inhotim quando o Pavilhão de Adriana foi montado. O desafio de encontrar as obras que estavam espalhadas pelo mundo (metade do que está exposto estava fora) e a emoção da artista de revê-las depois de três décadas dão um caráter especial e único ao projeto. As três “Línguas” produzidas em 1998 nunca foram expostas lado a lado, e poderão ser vistas juntas agora.

O barroco, a colonização e a miscigenação são temas constantes na obra de Adriana ao longo dos anos, ainda que expressos de formas diferentes. 

O barroco foi o motor das primeiras obras, realizadas a partir dos afrescos, dos anjos dourados e do azulejo português azul e branco das igrejas de Ouro Preto. “Quando entrei pela primeira vez numa igreja barroca, tive uma epifania. Era essa plasticidade, a presença do corpo, a loucura da matéria. Meu trabalho tem esse exagero, tem muita tinta,” Adriana disse certa vez.

Depois de uma viagem de meses pela China nos anos 90, as referências da cerâmica da dinastia Song, do século XI, foram incorporadas aos trabalhos. Assim nasceram as rachaduras, as superfícies craqueladas e as fissuras.

Os azulejos começaram a ser rompidos por cortes (segundo Adriana, à la Lucio Fontana), sangue e carne exposta. “Ruínas de charque” é uma série de pinturas tridimensionais (ela evita chamar de escultura) de grande escala iniciadas em 1999, em que vísceras ensanguentadas arrebentavam o revestimento do ladrilho. A série “Saunas” veio na sequência, criando ilusões a partir de lugares imaginados, retratados de forma estéril mas sombria, com um vazio ocupado apenas por imperceptíveis vestígios humanos, como cabelos ou sangue.

Estas obras conseguem ser atraentes e assustadoras ao mesmo tempo.

Em 2008, Adriana ganhou um pavilhão permanente no Inhotim, onde o visitante mergulha em um mar de azulejos craquelados, brancos e azuis. Adriana observou que um azulejo quebrado em painéis ou igrejas era substituído por qualquer outro, sem cuidado em recompor a imagem original – típico de um país que nada preserva. 

Na mesma linha e uma influência importante para Adriana, Athos Bulcão (famoso pelos painéis de Brasília) deixava os operários decidirem como instalar seus azulejos, o que tornava o resultado da obra imprevisível.

Mais recentemente, Adriana aumentou seu interesse pela cultura pré-hispânica, colonial e moderna do México, país que conhece bem. A tradição da cerâmica mexicana e espanhola, como os azulejos, tem uma carga histórica e social que a interessa. Em 2017, ela visitou Puebla como convidada do Museo Amparo para estudar a cerâmica de talavera, que tem fontes similares às do barroco brasileiro. O resultado foi exposto em 2021 na Gagosian de Nova Iorque, na mostra intitulada “Talavera”.  A pesquisa nunca para ou se acomoda.

Observar uma obra de Adriana é quase uma experiência sensorial – dá para sentir o que está pulsando embaixo do acúmulo da matéria, com uma urgência que não pode ser contida e assim fissura, craquela e rompe completamente a tinta. 

Volz explica que “é uma pintura que vai além da bidimensionalidade da tela (…) são frestas, cortes, vazamentos que descortinam uma situação e dão um novo significado, como por exemplo as ‘vísceras’ e ‘carnes’.”

Na nossa conversa, o curador destacou conceitos presentes em toda trajetória da pintora: a ilusão, a paródia, as contradições e os confrontos entre coisas aparentemente opostas – a parede/a carne – elementos do pensamento barroco presentes desde 86, quando ela era estudante no Parque Lage, no Rio.

O Brazil Journal descobriu que Adriana recentemente doou ao MASP uma obra importante de seu acervo pessoal, “Quadro Ferido”, de 1992.  

Ela também doou “Ruína Brasilis” à Pinacoteca. A obra é uma crítica à apropriação das cores da bandeira para defender ideias retrógradas. A coluna que deveria sustentar o edifício está ruindo tragicamente. Uma ferida exposta que a artista não deixa de cutucar – claramente o dedo na ferida não é apenas metafórico.