Abdias Nascimento viveu muitas vidas em seus 97 anos.

Fundamental na luta contra o racismo no Brasil, foi político, professor, poeta, ator, diretor teatral e artista plástico – ainda que sua produção visual nunca tenha sido devidamente reconhecida por aqui. 

Para preencher essa lacuna histórica, o MASP organizou Abdias Nascimento: um artista panamefricano, que fica em cartaz só mais esta semana.

Na maior (e imperdível) retrospectiva deste grande artista, o museu reuniu fotografias, documentos históricos e 62 pinturas que vão da abstração geométrica a símbolos da religiosidade afro-brasileira. A mostra é dividida em sete núcleos: Teogonia afro-brasileira, Quilombismo, Deuses vivos, Germinal, Sankofa, Axé da esperança e Axé de sangue.

O “panamefricano” do subtítulo da exposição remete tanto aos personagens, cores e formas do pan-africanismo quanto à expressão “ladino-amefricano,” cunhada pela antropóloga Lélia Gonzalez para se referir às culturas negras da América Latina. 

Quando o MASP preparava a exposição Acervo em Transformação, a tela Okê Oxóssi de Abdias, que parte da bandeira do Brasil para saudar um orixá, foi colocada ao lado das pinturas de Volpi e Rubem Valentim.

“Vistos juntos, os trabalhos de Rubem Valentim, Volpi e Abdias Nascimento falam sobre a ideia do modernismo plural,” a co-curadora Amanda Carneira disse ao Brazil Journal

Daí surgiu a ideia dos curadores de mostrar simultaneamente Volpi e Abdias: “É interessante ver como a linguagem construtiva pode ser reapropriada e ressignificada, seja para representar fachadas e bandeiras ou símbolos afro-brasileiros.” 

Intelectual articulado, inteligente e sensível, Abdias tem sua imagem artística primordialmente associada ao teatro negro. Isto porque, ainda jovem, assistiu (perplexo) a uma peça em que o personagem principal era interpretado por um ator branco pintado de preto.

Inconformado com a falta de protagonismo dos atores negros, em 1944 Abdias fundou o Teatro Experimental do Negro (TEN), onde foi ator, dramaturgo e diretor e do qual saiu o primeiro ator negro a interpretar um papel relevante no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. 

Na década de 50, Abdias idealizou o Museu de Arte Negra, no Rio de Janeiro, uma referência até hoje.

Em 1968 começou a pintar, mas alertava, “eu nem sei se poderia classificar de pintura…Sou apenas um pintor de arte negra. Não quero me relacionar com os cânones de arte formal.” 

Autodidata, via a pintura como mais um meio artístico para desenvolver e trabalhar sua herança cultural africana. 

Naquele mesmo ano, Abdias ganhou uma bolsa de estudos e foi morar nos EUA. Nos 13 anos em que lá viveu, a pintura foi uma das suas atividades principais.

Com poucos recursos financeiros em Nova Iorque, morou de favor no apartamento da pintora Ann Bagley, e começou a pintar aproveitando as sobras de tintas e materiais da dona da casa. 

Quando a Universidade Columbia comprou uma tela sua por mil dólares, celebrou o reconhecimento e um respiro financeiro. 
 
A estética, o volume e as cores eram secundários, já que o objetivo era retratar o espiritual e cultural do afro-brasileiro, sem o formalismo da arte convencional europeia. Com uma composição sofisticada, revelava o conteúdo de seu pensamento através da forma e da simetria. 

Sua projeção aumentou quando se tornou professor na State University of New York, em Buffalo, onde fundou a cadeira de Culturas Africanas no Novo Mundo. Lá conheceu Elisa Larkin, com quem se casou e teve seu terceiro filho. A imersão acadêmica proporcionou o contato com o movimento pan-africano, que pregava a união de todos os povos da África para um fortalecimento no cenário internacional. 

De volta ao Brasil (com suas telas na mala), em 1981, fundou com Elisa o IPEAFRO – Instituto de Pesquisa e Estudos Afro-Brasileiros, um centro de ensino e pesquisa de assuntos afro-brasileiros, com uma biblioteca formada a partir de seu acervo pessoal. 

Abdias foi para os Estados Unidos como artista plástico, mas voltou como liderança política. 

A imersão acadêmica deu novos contornos à sua luta contra o racismo. Por essa razão, a pintura virou uma atividade satélite em sua vida, que passa a ser dominada pela agenda pública. Ajudou Leonel Brizola a fundar o PDT, legenda pela qual foi deputado federal e senador (foi suplente de Darcy Ribeiro) por 11 anos, período em que lutou bravamente pela igualdade racial.

Muitas de suas pautas não foram aprovadas na época, como ações afirmativas, direitos dos quilombolas, legislação contra o racismo e a criação do dia da consciência negra – mas viraram leis anos depois. 

Os discursos de Abdias ficaram na história por sua qualidade e pela elegância com que rebatia críticas e preconceitos. 

Poucas pessoas transitam tão bem em tantas áreas humanas e deixam um legado desta magnitude para o país. A viúva de Abdias declarou em entrevistas que ele via sua expressão artística e sua militância como um ato de amor. 

“Muito disso emerge tanto na poesia dele quanto na pintura, como também na dedicação dele ao ativismo negro. No fundo, era uma pessoa movida fundamentalmente pelo amor, que tinha uma capacidade de traduzir esse amor de várias maneiras em produções criativas diferentes.”

 

Baía de sangue (Luanda), 1996