Em uma manhã de 1945, vindo de uma temporada de trabalho em Los Alamos, Novo México, John von Neumann caiu na cama logo que chegou à sua casa em Princeton, Nova Jersey.  Dormiu doze horas seguidas.

Sua mulher, Klári, ficou preocupada com o comportamento atípico do marido. Incansável tanto nas pesquisas científicas que liderava quanto nas festas que promovia, von Neumann nunca precisara de tanto sono assim.

Quando acordou, no meio da noite, o matemático húngaro se pôs a falar sobre o trabalho que estava realizando em Los Alamos: “O que estamos criando agora é um monstro que mudará a história, se é que ainda haverá história,” anunciou von Neumann.

Ele especulou ainda sobre novas máquinas que em breve se tornariam “não só importantes, mas indispensáveis”, e que também poderiam representar um perigo para a humanidade.

O “monstro” era a bomba atômica que meses depois seria lançada sobre Hiroshima e Nagasaki. A máquina perigosa é o moderno computador. São duas realizações técnicas do século XX cujas repercussões ainda se sentem na segunda década do século XXI. Ambas devem muito à inteligência prodigiosa de von Neumann. Em boa medida, vivemos hoje em um mundo que ele ajudou a configurar.

Káli contava que, a partir daquela noite de delírio profético, a “forma das coisas futuras” seria a preocupação obsessiva de seu marido. O jornalista de ciência Ananyo Bhattacharya abraça essa ideia já no título de sua excelente biografia deste que foi um dos maiores matemáticos do século passado. 

The Man from the Future – The Visionary Life of John von Neumann (Penguin; 386 páginas) não se restringe aos limites da vida e obra do biografado: também examina os desdobramentos de suas ideias nos mais variados campos, da física quântica à teoria dos jogos.
 
Nascido em Budapeste em 1903, Neumann János Lajos – John é a forma americanizada de seu nome, que ele adotou a partir de 1930 quando se radicou nos Estados Unidos – pertencia a uma rica família de comerciantes judeus cristianizados. 

Como seu pai não apreciava o pendor do filho mais velho pelo estudo de matemática, carreira que não lhe parecia promissora, o jovem aceitou estudar química, primeiro em Berlim e depois em Zurique – onde pagou uma conta salgada pela vidraria de laboratório que quebrou.

Em todas as universidades por que passou, porém, von Neumann sempre buscava os melhores professores de matemática. Ainda adolescente, já começara a estudar – e a resolver – os problemas teóricos mais espinhosos da Teoria dos Conjuntos.

Em seguida, voltou-se para o impalpável universo da física quântica. Entre outros feitos, demonstrou matematicamente que as teorias aparentemente distintas de Werner Heisenberg e Erwin Schrödinger sobre mecânica quântica eram no fundo uma só.

Em 1930, antevendo uma virada nefasta no clima político da Alemanha, onde estava lecionando, aceitou um posto em Princeton. Lá se tornaria, aos 29 anos, o mais jovem membro do recém-inaugurado Instituto de Estudos Avançados, uma torre de marfim acadêmica que abrigava luminares como Albert Einstein e Kurt Gödel.

O período americano marcou uma transição da matemática pura para a ciência aplicada. Com sua arraigada ojeriza tanto ao nazismo quanto ao comunismo – que conhecera de perto na Hungria, durante o breve governo do marxista Bela Kun, em 1919 – von Neumann serviu com entusiasmo às forças militares de seu país de adoção durante a Segunda Guerra e nos primeiros anos da Guerra Fria.

Em Los Alamos, onde foram desenvolvidas as bombas lançadas no Japão, dedicou-se a calcular a altura ideal para detoná-las, de modo a otimizar a destruição produzida pelas ondas de impacto.

O desenvolvimento de armas nucleares gerou uma demanda torrencial de processamento de dados. Foi isso que levou von Neumann a pesquisar computação. A arquitetura para um computador eletrônico programável com memória local esboçada por ele em 1945 ainda é, em linhas gerais, seguida pelos aparelhos atuais.

John von Neumann morreu em 1957, vítima de câncer ósseo. Bhattacharya observa que a reputação póstuma do matemático acabou prejudicada por seu ardor belicista no pós-guerra, quando chegou até a defender um ataque nuclear preventivo à União Soviética. Seu legado, porém, não se limita ao desenvolvimento de armas. Ele foi um gênio inabarcável.