Quem passa todos os dias pela Avenida Faria Lima dificilmente imagina que, na esquina com a Rua Amauri, existe um dos projetos arquitetônicos mais radicais do país: a Casa Bola, a residência esférica construída pelo arquiteto Eduardo Longo.

Aos 83 anos, Longo abre sua casa ao público pela primeira vez como parte da 5ª edição do Aberto, a plataforma de exposições fundada por Filipe Assis, com curadoria de Kiki Mazzucchelli e Claudia Moreira Salles.

Entre 7 de março e 31 de maio, os visitantes poderão percorrer a casa e ver as obras de arte em exposição. Antes mesmo da abertura oficial quase dois mil ingressos já haviam sido vendidos, e o projeto recebeu a atenção de veículos como a Wallpaper, Financial Times e New York Times.

Construída entre 1974 e 1979, a Casa Bola nasceu de uma obsessão de Longo: encontrar a forma arquitetônica ideal que pudesse ser produzida industrialmente.

“A esfera é o volume mais leve possível, e isso sempre me fascinou,” o arquiteto disse em entrevistas. “Meu sonho era criar casas modulares muito leves que pudessem até ser transportadas pelo ar.”

A estrutura de oito metros de diâmetro foi moldada manualmente sobre uma malha de tubos de aço reciclados que também formam paredes e móveis embutidos — tudo na cor branca, dando a sensação de se estar em uma nave espacial.

Durante décadas, Longo viveu ali com sua esposa e dois filhos. Apesar da forma compacta, o espaço foi pensado para a vida cotidiana. Os quartos e áreas de armazenamento ficam na parte inferior da esfera; cozinha e sala de jantar ocupam o nível intermediário; e, no topo, a área de estar se abre para janelas amplas com vista para a cidade.

Longo poderia ser considerado um “hippie urbano”, e a Casa Bola refletia uma visão de futuro marcada pela leveza material e o combate aos excessos.

“Eu imaginava que as pessoas passariam a viver com menos coisas e de maneira mais simples,” disse ele. “As cidades já oferecem muitas coisas sem que precisemos possuí-las. Pensei numa arquitetura mais leve — material e mentalmente.” 

Durante alguns anos, o térreo permaneceu aberto à circulação pública, com passagens livres que davam acesso ao tobogã da casa, usado por crianças da vizinhança e até moradores de rua.

Por décadas, a esfera intrigou arquitetos e artistas. Em 2011, Rem Koolhaas e o curador Hans Ulrich Obrist visitaram o espaço. “Foi uma das experiências arquitetônicas mais fortes da minha vida,” disse  Koolhaas, impressionado.

Foi esse espírito radical (e genial) que atraiu o projeto Aberto.

Desde sua criação, a plataforma criada por Filipe Assis vem ocupando casas emblemáticas da arquitetura brasileira com exposições de arte contemporânea.

“Queríamos encontrar uma peça inventiva de contracultura arquitetônica, e a Casa Bola era exatamente isso,” Filipe disse ao Brazil Journal.

Para esta edição, cerca de 50 artistas brasileiros e internacionais criaram 60 obras – algumas comissionadas em resposta à casa, à personalidade de Longo e outras selecionadas para dialogar com a construção experimental ou o estilo divertido do arquiteto.

“Tudo que Eduardo criava tinha humor,” disse Filipe. “Alguns artistas responderam justamente a esse espírito.”

Com um olhar curatorial apurado, as obras na casa apresentam o melhor de cada artista. Destaque para as obras de Sandra Cinto, Laura Lima, Vívian Caccuri, Tatiana Chalhoub, Janaina Tschäpe, Luiz Zerbini e os novatos Sergio Jorge e Gustavo Silvamaral.

A mostra também tem um núcleo dedicado à trajetória de Eduardo Longo, curado por Fernando Serapião. Nessa área, o público pode ver desenhos e fotos de outros projetos inusitados do arquiteto.

Paralelamente à visitação da Casa Bola estreia o projeto ABERTO Rua, que leva 23 obras comissionadas para a Faria Lima, entre a Gabriel Monteiro da Silva e a Rua Adolfo Tabacow.

“Com o Aberto Rua, levamos a arte para o fluxo da cidade,” disse Filipe. “Pela primeira vez ocupamos um espaço público na Faria Lima com 23 obras de 17 artistas. Em uma das avenidas mais movimentadas de São Paulo, a exposição propõe um respiro no meio da pressa e amplia o acesso à arte para quem talvez não estivesse necessariamente procurando por ela.”

O resultado é um raro encontro entre arquitetura experimental, um recorte de qualidade de arte contemporânea, e um manifesto da contracultura dos anos 70. Sem dúvida, um dos programas mais interessantes e originais na cidade nos próximos três meses.

Casa Bola 3