O americano Alec Howard desembarcou no Brasil em 2016, pouco antes da Olimpíada do Rio. Ele trabalhava no Uber e veio se juntar ao time que liderava a expansão da plataforma no País. Morou aqui alguns meses, ajudando a abrir escritórios regionais e a adaptar o aplicativo às particularidades do sistema brasileiro de pagamentos.

Dez anos depois, Alec está se mudando de Nova York para São Paulo. Dessa vez, vem para cuidar da expansão de seu próprio negócio.

Alec é cofundador e CEO da Ruvo, uma fintech de pagamentos internacionais e transferências de recursos que usa stablecoins para simplificar e baratear as operações cross-border.

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A startup, que ganhou o apoio da aceleradora americana Y Combinator, acaba de levantar US$ 4,6 milhões numa rodada liderada pela 1confirmation, que já investiu na Polymarket e na Coinbase. Entre os outros participantes estão Coinbase Ventures e Rebel Fund (de ex-investidos da Y Combinator), além de investidores anjo dos EUA e do Brasil.

A plataforma já está em operação e conecta em uma única wallet o Pix, stablecoins e o sistema de pagamentos da Visa.

O serviço foi criado para os brasileiros, tanto pessoas físicas quanto PJs, principalmente os que possuem receita no exterior e querem enviar recursos para o Brasil – mas o fluxo também pode ser do Brasil para o mundo.

A conta possibilita ainda compras internacionais em dólar com um cartão da bandeira Visa. Os clientes podem também investir em USDT – uma stablecoin atrelada ao dólar – com rendimento de até 6% ao ano.

Alec e seu sócio, o CTO Mike Mason, viram que fintechs do México e da Argentina vinham usando stablecoins para fazer transferências internacionais de expatriados, mas que até recentemente não havia nada parecido no Brasil. 

Eles conheciam engenheiros brasileiros com quem haviam trabalhado no exterior e sabiam das dificuldades e custos envolvidos em remessas de dólares para o Brasil.

“Então, em janeiro do ano passado, eu fui ao Brasil para sondar a viabilidade desse negócio – e também, devo dizer, para fazer uma surf trip,” Alec disse o Brazil Journal. (As ondas de Barra do Una, em São Paulo, e do Arpoador e da praia do Diabo, no Rio, estão entre suas prediletas no Brasil.)

O empreendedor acabou ficando seis meses aqui. A partir de abril, ele e seus sócios começaram a desenvolver a plataforma e fazer as primeiras operações de transferência. “Um dos primeiros pagamentos foi para o dentista, aí no Brasil.”

Em junho, apresentaram o projeto na Y Combinator. São uma das pouquíssimas startups latino-americanas apoiadas pela aceleradora neste momento.

Os principais clientes são empresas pequenas e de médio porte, além dos “pejotas” – essa figura tão brasileira quanto o samba, e que Alec conheceu muito bem desde os tempos no Uber.

Hoje, segundo dados da Ruvo, mais de 30 milhões de brasileiros movimentam recursos entre fronteiras ou fazem pagamentos internacionais, em valores que se aproximam de US$ 150 bilhões ao ano.

“Bilhões de reais são perdidos devido a taxas de câmbio desfavoráveis, tarifas ocultas e infraestrutura obsoleta,” disse Alec.

Com sede no Brasil, a Ruvo trabalha com bancos americanos e brasileiros para realizar as operações.

Os pagamentos com stablecoins são isentos de IOF, o que oferece uma vantagem adicional – embora isto pareça ter seus dias contatos, pois a Receita busca uma forma de tributar essas operações.

“Seguimos toda a regulamentação exigida no Brasil e vamos nos adequar assim que saírem as novas normas do Banco Central,” disse Alec.

As taxas da plataforma cobradas para pessoas físicas são de 0,9% para transferências de USDT para dólares ou reais, e de 1,8% para transferências entre dólares e reais. Para PJs, as taxas são menores: 0,2% e 0,4%. Movimentações de cripto para cripto são gratuitas.

As transferências tradicionais pelo Swift, além de serem mais caras, chegam a levar cinco dias úteis para serem liquidadas. Usando stablecoins, o pagamento é quase instantâneo como o Pix.

O avanço da regulamentação das stablecoins nos EUA e no Brasil deu mais segurança a essas operações, e agora, além da Ruvo, startups como a Lumx e a Unblock Pay começam a surgir para explorar as vantagens de usar uma infraestrutura de blockchain para esses pagamentos.

“Os brasileiros e americanos deveriam poder transferir dinheiro entre o Brasil e os EUA tão facilmente quanto enviar um Pix – e aumentar seu patrimônio com ferramentas financeiras que funcionam globalmente,” disse Alec. “É isso que estamos buscando.”