Depois de quatro anos em que o mercado agrícola foi marcado principalmente por excesso de oferta e margens apertadas, uma velha ameaça volta ao centro das atenções: o El Niño.
O relatório Visão Agro do Itaú BBA, que acaba de ser publicado, mostra que o fenômeno climático é um risco para praticamente todas as lavouras comerciais do Brasil. O rápido aquecimento das águas do Pacífico lembra episódios do passado que culminaram em El Niños de grande intensidade
Segundo o Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos, há 63% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre novembro e janeiro — patamar que o colocaria entre os eventos mais intensos desde 1950.
Se a previsão se confirmar, o clima poderá redefinir a produção agrícola em diversos países justamente num momento em que os estoques globais de commodities como soja e milho perderam parte da folga acumulada nos últimos anos.
No Brasil, os efeitos tendem a ser assimétricos. O Sul deve receber chuvas acima da média, favorecendo algumas culturas, mas elevando o risco de enchentes, doenças e dificuldades na colheita.
Já Centro-Oeste, Norte e Nordeste podem enfrentar atrasos nas chuvas, veranicos e déficit hídrico — combinação especialmente preocupante para a soja e, sobretudo, para o milho safrinha.
“Se o El Niño for suficientemente forte para afetar especialmente o Mato Grosso, como aconteceu em 2023, o equilíbrio desta vez é muito mais sensível ,” disse César de Castro, gerente da consultoria agro do Itaú BBA. “Hoje a diferença entre produção e consumo de soja é praticamente zero. Há três anos era de cerca de 15 milhões de toneladas. Qualquer quebra semelhante à dos anos de El Niño forte pode criar um cenário muito mais altista para os preços.
Embora o cenário-base do banco ainda seja de uma safra recorde para a soja brasileira, de 182,4 milhões de toneladas, um Super El Niño poderia provocar perdas importantes justamente num momento em que o mercado mundial depende de uma produção cheia para manter os preços sob controle.
Para algumas culturas, o impacto seria imediato. Para outras, como café e laranja, os maiores efeitos apareceriam apenas nas safras seguintes.
Soja
A soja entra na safra 2026/27 em situação relativamente confortável. A produção mundial deve chegar a cerca de 441 milhões de toneladas, praticamente o mesmo volume do consumo.
O problema é que essa margem de segurança ficou pequena. Caso um Super El Niño reduza a produtividade brasileira, o equilíbrio global pode rapidamente se transformar em déficit.
O risco é maior no Centro-Oeste, onde atrasos nas chuvas e períodos secos podem comprometer o desenvolvimento das lavouras. Já o Sul tende a ser beneficiado por maior disponibilidade hídrica, embora aumente o risco de doenças e eventos extremos.
“Simulamos repetir a quebra de produção que ocorreu no Mato Grosso em 2023. Se isso acontecer de novo, cerca de 5 milhões de toneladas de soja sairiam do mercado. Um superávit que hoje é de praticamente 1 milhão de toneladas passaria para um déficit de cerca de 5 milhões,” disse Castro.
Milho
Se existe uma cultura especialmente exposta ao El Niño, ela é o milho de segunda safra.
Como a safrinha depende do calendário da soja, atrasos no plantio da oleaginosa comprimem a janela ideal de semeadura. Isso aumenta a exposição do milho ao período seco justamente durante o enchimento dos grãos – o que reforça o alerta sobre o nível de investimento em adubação e tecnologia.
Segundo o Itaú BBA, uma quebra da safrinha teria impacto não apenas sobre o Brasil, mas também sobre o mercado internacional, já que o consumo global praticamente iguala a produção.
Algodão
Assim como o milho, o principal risco do El Niño para o algodão é indireto. Como a cultura é plantada após a soja, atrasos provocados pelo fenômeno podem reduzir a janela ideal de semeadura e aumentar o risco de déficit hídrico durante o desenvolvimento da lavoura.
Para a safra de algodão de 2026/27, a produção no Brasil deve ter uma leve queda de 2,4% (atingindo 4 milhões de toneladas) devido a uma expectativa de produtividade um pouco menor do que o nível excepcional do ano anterior.
Apesar disso, com a área de plantio estável, o país se mantém como o maior exportador mundial e o principal impulsionador da oferta global do produto. Estoques globais menores, porém, devem ajudar a sustentar os preços.
Arroz
O arroz já enfrenta um cenário de excesso de oferta global e preços deprimidos. No Brasil, o Departamento de Agricultura Americano, o USDA, projeta uma nova queda de produção na safra 2026/2027 de 2,6%. O recuo reflete a baixa rentabilidade no País, que vem restringindo os investimentos na cultura.
O banco estima nova redução de área, que já havia caído 14% na safra passada. Caso o El Niño reduza também a produtividade, a oferta cairia mais rapidamente, acelerando a queda dos estoques e favorecendo uma recuperação dos preços.
Café
Ao contrário de outras culturas, a safra 2026/27 de café já está praticamente definida e deve ser recorde, especialmente para o arábica, com projeção de 72,5 milhões de sacas, um crescimento de 15%.
O principal temor é para a florada que dará origem à safra 2027/28. Temperaturas elevadas e chuvas irregulares durante esse período podem comprometer o potencial produtivo da próxima colheita e limitar a queda dos preços internacionais.
Cana
O setor sucroenergético já vive uma safra volumosa, de 667 milhões de toneladas, mas um Super El Niño pode alterar completamente sua execução.
O precedente ocorreu na safra 2015/16. Naquele ciclo, chuvas durante o inverno interromperam repetidamente a moagem, reduziram a qualidade da matéria-prima e produziram o menor teor de açúcar da série histórica.
Segundo o Itaú BBA, o fenômeno pode voltar a provocar irregularidade na colheita, piora da qualidade da cana e mudanças na sazonalidade da produção de açúcar e etanol.
Trigo
No trigo, o principal risco não é falta, mas excesso de água.
Chuvas acima da média no Sul durante fases críticas do ciclo favorecem doenças como a giberela, reduzem a qualidade dos grãos e podem até provocar germinação ainda na espiga.
Com produção já projetada em queda de cerca de 20%, um problema climático ampliaria a dependência brasileira de importações, principalmente da Argentina.
Laranja
Na citricultura, a safra atual já está praticamente definida, com 255 milhões de caixas, queda de 13% em relação ao ciclo anterior (recuo que se explica a bienalidade negativa, após uma safra forte).
O El Niño, porém, pode comprometer a florada entre setembro e novembro, aumentando o abortamento de flores, a queda de frutos e reduzindo o potencial produtivo da safra 2027/28.
O fenômeno também provoca efeitos imediatos sobre a qualidade da fruta ainda nos pomares, atrasando a maturação e reduzindo o rendimento industrial do suco.






