Bancos dizem que a Camil vale 50% mais

Desde que estrearam na Bolsa no fim de setembro, as ações da Camil não ultrapassaram o preço de R$ 9 do IPO, que já fora revisado para baixo durante a oferta.

Mas os analistas dos bancos que coordenaram a operação veem uma pimenta a mais na empresa do arroz com feijão.

Em relatórios de início de cobertura divulgados hoje, Bradesco BBI, JP Morgan e Merrill Lynch deram ‘strong buys’ para o papel, com um preço-alvo que embute uma alta de pelo menos 50% até o fim do próximo ano.

Para eles, a liderança no mercado de arroz, a resiliência da geração de caixa e o potencial de consolidação – tanto nos segmentos em que já atua, quanto em novas frentes como massas e café – são os principais temperos da companhia.

Pelo menos por enquanto, o mercado está digerindo a opinião dos bancos com o proverbial 'grain of salt': a ação fechou a R$ 8,06, perto da mínima do dia.

O Bradesco disse que a ação é seu 'top pick' na América Latina. “Acreditamos que a Camil tem potencial para chegar a um market share de 25% no mercado brasileiro de arroz (+8 p.p.) nos próximos 10 anos, adicionando R$ 1,5 bilhão (+30%) em receitas”, escreveu a equipe liderada por Gabriel Lima. O preço-alvo: R$ 12.

A Camil tem 17% do mercado brasileiro de arroz, o mais fragmentado entre os segmentos da indústria de alimentos cobertos pelo banco.

Apesar do volume total de arroz consumido no País estar estagnado há 10 anos, a Camil vem conseguindo ganhar share em cima de concorrentes menores e menos capitalizados: nos últimos cinco anos, em plena recessão, o volume de arroz vendido pela companhia cresceu 4% ao ano.

As oportunidades de consolidação vão além do arroz, que responde por 65% da receita, e dos mercados de açúcar (onde a companhia com a marca União) e do peixe enlatado, que juntos respondem pelos outros 35%.

Com uma forte rede de distribuição própria, a Camil pode entrar em mercados como barras de cereal, café, farinhas de trigo e massa, aproveitando as sinergias para diluir custos fixos, aponta a Merrill Lynch, que carimbou um preço-alvo de R$ 13,50 na ação.

A Camil também tem uma característica pouco comum a empresas que vendem commodities: uma margem EBITDA estável, na casa de 10% a 12% nos últimos dez anos. Nas contas das analistas Isabella Simonato e Daniella Eiger, cada variação de 10% no preço do arroz se traduz em um impacto de apenas 3% no EBITDA.

Essa ‘imunidade’ é fruto do relacionamento construído com os fornecedores. A Camil dá toda a estrutura de armazenamento para os produtores de arroz – que são pulverizados e, normalmente, pouco capitalizados. Em troca, consegue comprar o arroz apenas quando efetivamente precisa e quando os preços estão mais favoráveis. Na prática, trata-se de um estoque de arroz fora do balanço.

Para os analistas, a comparação com os pares mostra que a companhia está barata. A Camil negocia a cerca de 10 vezes o lucro para 2018, enquanto os pares na América Latina, como a M Dias Branco, são negociadas a um múltiplo de 18 a 22 vezes. No múltiplo EV/Ebitda, a companhia vale 6,2 vezes, contra 10 dos pares.

O JP Morgan, que também vê a ação valendo R$ 12, diz que a deflação de alimentos deprimiu os resultados mais recentes da companhia, mas a volta dos preços a condições normais no próximo ano deve provocar um re-rating no papel. O banco estima um crescimento de 13% na receita e de 21% no EBITDA em 2018.

“A Camil não é um nome de beta elevado, sensível ao crescimento do PIB, mas oferece aos investidores uma small cap de qualidade e exposição ao Brasil com bons retornos (de cerca de 14% sobre o patrimônio)”, escreveu a equipe de Pedro Leduc.

Os riscos apontados pelas casas de análise são a baixa barreira de entrada para novos competidores, especialmente no setor de arroz, e uma questão tributária.

No começo de outubro, logo após o IPO, a Camil foi autuada pela Receita Federal, por uma suposta redução da base de cálculo de impostos gerados na incorporação de quatro empresas, entre 2011 e 2012. A cobrança é de R$ 270 milhões. A Camil já disse que vai recorrer e que, por enquanto, não constituirá provisão sobre a cobrança, considerada improvável.