O aumento dos juros nos Estados Unidos fortaleceu o dólar. Mas essa situação deverá ser transitória. Assim que a inflação americana estiver sob controle, os juros deverão escorregar novamente para níveis historicamente baixos, diminuindo a atratividade da moeda americana.

Essa é a análise do economista Barry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley e um dos mais respeitados estudiosos das finanças internacionais.

Global WatchAutor de livros como A globalização do capital: uma História do Sistema Monetário Internacional e de Privilégio Exorbitante: a Asensão e Queda do Dólar, nos anos 1990 o economista foi senior policy advisor no Fundo Monetário Internacional.

Eichengreen reconhece que o aperto monetário nos Estados Unidos causou turbulência em outros mercados e poderá afetar a economia dos emergentes. Mas isso não demoverá o Federal Reserve de sua escala contra a inflação.

“Se o Fed parasse de aumentar as taxas antes que a luta inflacionária fosse vencida, haveria o risco de uma desancoragem das expectativas de inflação,” disse Eichengreen ao Brazil Journal. “Se isso ocorresse, o Fed teria que apertar ainda mais dramaticamente os juros para ancorar as expectativas de inflação. A dor para o resto do mundo seria ainda maior.”

Passado esse ajuste conjuntural, argumenta o economista, deverá se manter a tendência de diminuição do domínio do dólar na economia internacional. Esse foi o tema do artigo  “The Stealth Erosion of Dollar Dominance, publicado em março pelo FMI. No trabalho, Eichengreen e co-autores demonstram como moedas de reserva não tradicionais estão ganhando relevância internacional.

Ao falar sobre o Brasil, o professor diz que o País tem hoje melhores condições para enfrentar uma recessão global, mas não sairá imune: “É bom que o Brasil tenha dado passos para fortalecer suas finanças. Mas isso não torna a sua economia blindada”.

Na entrevista abaixo, Eichengreen comentou o declínio da libra esterlina e os limites para a ascensão do renminbi nas finanças globais.

Alguns economistas afirmam que o Fed está subindo os juros rápido demais. Ao mesmo tempo, o quantitative tightening reforça o aperto monetário. Esse ajuste trouxe instabilidade aos mercados de títulos na Europa e acendeu um sinal de alerta nos países emergentes. É hora de moderar o aumento nos juros?

Enquanto a inflação permanecer alta, em um patamar desconfortável, o Fed manterá o aperto monetário. Ele monitora o impacto de suas políticas nos mercados emergentes, onde a combinação de dívida dolarizada e dólar em alta causam problemas econômicos. Monitorar é uma coisa, mudar a sua política é outra.

O mandato do Fed é controlar a inflação nos EUA e, ao mesmo tempo, manter o nível de emprego elevado, na medida do possível. O vice-presidente do Fed, Lael Brainard, fez um discurso interessante na semana passada, observando que o Fed leva em consideração os efeitos em outros países e as consequências disso para a economia americana. Esse é o canal, de spillovers e spillbacks, por meio do qual o Fed presta atenção às dificuldades nos mercados de títulos na Europa e às condições nas economias emergentes.

Na minha avaliação, ainda faz sentido argumentar que, se o Fed relaxasse agora e parasse de aumentar as taxas antes que a luta inflacionária fosse vencida, haveria o risco de uma desancoragem das expectativas de inflação. Se isso ocorresse, o Fed teria que apertar ainda mais dramaticamente os juros para ancorar novamente as expectativas de inflação. A dor para o resto do mundo seria ainda maior.

Há um debate se os juros, depois que a inflação estiver sob controle, voltarão a patamares historicamente baixos ou se permanecerão mais elevados. Qual a sua avaliação? Acredita que perderam força as causas estruturais que haviam derrubado o custo do dinheiro?

Analisei esse fenômeno, meu paper está disponível na American Economic Association. Concluí que um dos principais fatores por trás do declínio nas taxas de juros foi a fraca demanda por investimentos. Especificamente, os setores de alta tecnologia não são muito intensivos em capital. Apple e Google não constroem grandes fábricas. Não vejo nenhuma indicação de que isso tenha mudado.

Agora, pode-se argumentar que veremos um aumento na demanda por investimentos no enfrentamento das mudanças climáticas e no desenvolvimento da energia verde. Ainda não estou convencido de que essa expansão será grande o suficiente para reverter a tendência de queda das taxas de juros que vinha ocorrendo há quase três décadas.

Historicamente, os ciclos mais intensos de aperto monetário do Fed trazem sofrimento para as economias emergentes. Muitos deles parecem estar mais preparados hoje para enfrentar esse cenário. O Brasil, por exemplo, é hoje credor líquido externo. Desta vez será diferente?

Estar mais preparado não é a mesma coisa que estar bem preparado. O Brasil pode evitar uma crise de dívida ao estilo dos anos 1980, o que é bom. Mas isso não significa que possa evitar uma séria desaceleração econômica, causando problemas financeiros para bancos e empresas.

Gostaria de enfatizar que estamos vendo não apenas o aperto do Fed, mas um aperto global. Estamos vendo não apenas a possibilidade de uma recessão nos Estados Unidos, mas uma recessão real na Europa e uma desaceleração muito séria na China. É bom que o Brasil tenha dado passos para fortalecer suas finanças. Mas isso não torna a sua economia blindada.

A libra esterlina entrou em trajetória de queda desde o Brexit. Depois houve a crise política durante o governo de Boris Johnson. Agora vemos os efeitos do plano econômico de Liz Truss. Londres está perdendo seu lugar como centro financeiro e porto seguro para os investidores?

Estudos mostram um crescimento de produtividade relativamente lento na Grã-Bretanha e o declínio do poder imperial e financeiro do país desde o final do século 19, na verdade. Portanto, vejo a manutenção de uma tendência secular.

A particularidade perturbadora agora é que o governo Truss parece especialmente ignorante. A ideia para resolver o problema da produtividade é “libertar o setor privado”. É um slogan sem qualquer substância.

No artigo “The Stealth Erosion of Dollar Dominance”, vocês mostram que a moeda americana está perdendo seu “privilégio exorbitante”. Um aspecto surpreendente é que as moedas não tradicionais estão ganhando relevância, e não o euro, como se imaginava. Por quê?

No livro Privilégio Exorbitante, que publiquei em 2011, sugeri que o dólar perderia gradualmente seu domínio financeiro, porque os demais países, gradualmente, reduziriam a diferença de renda per capita em relação aos Estados Unidos. É isso que temos visto.

A surpresa é que o dólar não perdeu terreno para o euro e perdeu apenas um terreno mínimo para o renminbi. Em vez disso, a folga foi ocupada por moedas de reserva não tradicionais emitidas por economias menores, como Canadá, Austrália, Suécia e Coreia do Sul.

Essa surpresa reflete dois fatores. Primeiro, o euro e o renminbi têm problemas. A economia da Europa está fraca e não completou sua união do mercado de capitais. A China mantém controles de capital e seu banco central não é independente. Em segundo lugar, os avanços na tecnologia financeira tornam mais fácil negociar e manter as moedas de economias menores, e essas moedas oferecem benefícios de diversificação de portfólio.

Você acredita que essa tendência de diversificação continuará após a alta do dólar atual? Ou os riscos geopolíticos podem impedir a ascensão do renminbi?

Parte do movimento de diversificação e fuga do dólar e do euro está nos juros muito baixos nos Estados Unidos e na Europa. Mas se as taxas subirem de fato, essas moedas vão se tornar mais atraentes.

Quanto ao renminbi, o maior detentor individual é a Rússia, cujos incentivos são óbvios. Mas depois das ações recentes de Vladimir Putin, outros governos podem pensar duas vezes antes de manter reservas em moeda chinesa. Pode ser arriscado estacionar suas reservas em Xangai quando não existem freios e contrapesos para restringir a ação arbitrária de um presidente todo-poderoso.

O Brasil é o segundo maior detentor da moeda chinesa, atrás da Rússia. No final de 2022, cerca de 5% das reservas internacionais brasileiras eram em renminbi. Em 2021, a participação era de apenas 1%. Qual a lógica por trás desse aumento da participação da moeda chinesa?

Quem pode responder isso é o Banco Central do Brasil. Eu provavelmente não teria me movido nessa direção.

Acredita que as moedas digitais oficiais podem acelerar a perda de importância do dólar?

Os obstáculos ao uso entre fronteiras das CBDCs [central bank digital currencies] ainda são enormes – mais políticos do que econômicos. Portanto, não as vejo como um divisor de águas do ponto de vista do sistema financeiro internacional.

Mas na medida em que, em última análise, elas tornam mais fácil negociar, utilizar e manter moedas de reserva não tradicionais, elas poderão representar mais um pequeno prego no caixão do domínio do dólar.