Você já ouviu falar na Caricante, Callet, Teroldego, Assyrtiko e Mencia?

A maioria de nós aprendeu a identificar vinhos pelos nomes de uvas famosas. Nada de errado nisso, mas é uma lente estreita.

Ao redor do mundo, centenas de castas pouco conhecidas produzem vinhos notáveis, muitas vezes tão emocionantes quanto os feitos pelas Cabernet Sauvignon, Chardonnay, Pinot Noir ou Syrah.

É inegável que dessas uvas nasceram alguns dos vinhos mais celebrados e caros do planeta, sobretudo os franceses. Mas excelência não é monopólio das “grandes estrelas”.

Minha obsessão por essas uvas amadureceu ao longo de viagens, feiras e conversas com produtores, sempre guiadas pela curiosidade. Mas foi num jantar com Miguelángel Cerdá, da Bodega Ànima Negra, em Palma de Mallorca, há alguns anos, que meu radar mudou de frequência. Cerdá apresentou vinhos feitos com variedades desconhecidas, como a branca Moll e a tinta Callet.

Foi impossível não se render.

A Callet, em especial, base do AN 2004, que degustei recentemente mais uma vez, revelou-se arrebatadora: um vinho raro, talvez conhecido apenas por Rafael Nadal e sua família, ilustres filhos da ilha. Um vinho de descoberta e de deslumbramento, exatamente como pode ser o ato de provar o novo. E o melhor: para não deixar por menos degustei o AN 2017, disponível hoje no mercado Brasileiro. Uma verdadeira joia. Esse vinho é emocionante, sempre.

Outra experiência marcante aconteceu na Sicília, aos pés do Etna, na Vinícola Benanti, em Viagrande (Catania). O sommelier-chef Giuseppe Fiorito apresentou duas uvas quase anônimas: a branca Caricante e a tinta Nerello Mascalese. Mas foi o branco Pietramarina, feito de Caricante “in purezza”, que roubou a cena.

Decidi explorar castas menos conhecidas que produzem vinhos notáveis. Grandes vinhos também nascem da originalidade do terroir local e da diversidade varietal.

Mencia, Callet e Viura, novos sotaques do vinho espanhol

A Espanha vive uma verdadeira revolução em seus vinhos, unindo modernidade e estilo. Entre os destaques estão a Mencia, da DOC Bierzo, e a Callet, citada acima.
A Mencia, a mesma que a portuguesa Jaen, ganhou notoriedade com o trabalho do produtor Álvaro Palacios, que, depois de colocar seus Prioratos entre os vinhos mais caros da Espanha, se dedicou a uma vinícola no caminho de Santiago de Compostela, produzindo maravilhas a partir da Mencia.

A Viura entrega desde vinhos simples a verdadeiras joias na Rioja, como os Gran Reserva de Viura, entre eles, os da Viña Tondonia, alguns dos brancos mais duradouros do mundo.

A branca Assyrtiko reina na linda ilha de Santorini, na Grécia

Na deslumbrante ilha de Santorini, um dos maiores cartões-postais do mundo, o protagonista não é apenas o pôr do sol, mas a uva branca Assyrtiko.
Plantada também em Ática, Halkidiki e Drama, é nos solos vulcânicos de Santorini que atinge sua expressão máxima: vinhos minerais, vibrantes e de acidez marcante. Essa casta reúne todas as qualidades para figurar entre as grandes estrelas dos brancos elegantes e secos do mundo.

Itália: um sem-fim de uvas maravilhosas

No Friuli, a branca Ribolla Gialla (ou Rebula, na Eslovênia) se destaca pela acidez vibrante, mineralidade e frescor cítrico.
No Trentino, a rara Teroldego, rainha das Dolomitas, produz desde tintos jovens até vinhos de guarda complexos, como o lendário Foradori Granato.
No Veneto, a Corvina, base dos Valpolicella, Bardolino e Amarone, revela todo o seu potencial quando bem cultivada, resultando em vinhos de corpo, com aromas de cerejas e delicados toques florais.

A Sagrantino, orgulho da Úmbria, é considerada uma das uvas mais ricas em polifenóis e resveratrol, substâncias associadas a benefícios cardiovasculares e antioxidantes. Seus vinhos são intensamente escuros, tânicos e potentes.

Já a Aglianico, cultivada na Campania e na Basilicata, origina vinhos potentes e estruturados, como o Aglianico del Vulture e o célebre Taurasi. Os Taurasi são carinhosamente chamados de “Barolo do Sul”, tamanha sua longevidade e elegância.

Portugal, muito mais que Touriga Nacional

Portugal é riquíssimo em uvas autóctones, com destaque para a célebre Touriga Nacional, símbolo dos grandes vinhos do Douro.
Entre as brancas, a Encruzado, do Dão, produz rótulos elegantes, estruturados e longevos, com equilíbrio entre fruta, acidez e madeira.
Já a tinta Alfroxeiro Preto, cultivada em regiões como Dão e Alentejo, gera vinhos escuros, especiados e de taninos finos, frequentemente usados em blends, mas também notáveis em versões varietais.

Savagnin, uma religião do Jura, na França

A Savagnin, uva símbolo do Vin Jaune do Jura, produz vinhos únicos, comparáveis aos Jerez, porém, sem adição de aguardente, e é uma experiência singular na enologia francesa.

O prazer de provar o desconhecido

Explorar uvas menos conhecidas é mais do que um exercício de curiosidade.
É redescobrir o espírito original do vinho: contar histórias, revelar lugares, surpreender o paladar.
Afinal, cada casta esquecida guarda o poder de nos lembrar por que nos apaixonamos por essa bebida em primeiro lugar.

Luiz Gastão Bolonhez é especialista em vinhos. Compartilha suas experiências no Instagram e é curador de vinhos nos leilões da Blombô.