O Governo está avançando em estudos para colocar em leilão um mega projeto de transmissão de energia, com tecnologia inédita no Brasil, que permitirá levar geração renovável do Nordeste até o Sul do País.
Orçado inicialmente em R$ 17 bilhões, o linhão vai reduzir o desperdício de geração eólica e solar visto hoje em diversos momentos do dia, quando usinas precisam ser desligadas pela falta de capacidade na rede para escoar toda a produção – o chamado curtailment.
O Ministério de Minas e Energia tem chamado o empreendimento de Corredor Expresso Bipolo Nordeste 2. Ele vai cortar o País, indo de Angicos, no Rio Grande do Norte, até Itaporanga, no Paraná.
Será a segunda obra de transmissão mais cara do Brasil, atrás apenas de um projeto atualmente em fase de construção, que liga o Maranhão a Goiás. Com Capex de R$ 18 bilhões, este foi leiloado em dezembro de 2023 e arrematado pela gigante chinesa State Grid.
Os estudos de viabilidade técnica e econômica do novo mega-linhão foram entregues no final de 2025 pela estatal Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Agora, empresas do setor serão chamadas para uma etapa final de estudos.
“A ideia é tentar colocar essas obras para licitação em 2027,” Thiago Dourado, o superintendente de transmissão de energia da EPE, disse ao Brazil Journal.
O principal objetivo do empreendimento é aumentar a capacidade de exportação de energia do Nordeste, onde está o maior potencial para renováveis, e que é a região que mais sofre com o curtailment.
Em 2025, o Brasil “jogou fora” cerca de 20% da energia eólica e solar devido aos cortes de geração, segundo estudo da Volt Robotics. A consultoria estimou em R$ 6,5 bilhões a perda de receita das empresas do setor.
Além de ajudar no curtailment, o projeto também aumentará a capacidade do Sul de receber energia do restante do País – o que é importante porque a região tem uma capacidade local de geração menor.
No mercado, a visão é de que a State Grid é a natural favorita no leilão, pelo expertise tecnológico e capacidade financeira do grupo. A AXIA Energia também é vista como potencial concorrente.
Com essa e outras obras licitadas nos últimos anos – incluindo o outro mega projeto que está sendo implementado pelos chineses – deve haver um alívio gradual nos cortes de geração eólica e solar.
“Ainda pode ocorrer o curtailment por falta de demanda, que chamamos de corte por questões energéticas, quando há excesso de geração na rede sem carga para absorver. Mas o curtailment por restrição elétrica será cada vez menor,” disse Dourado, da EPE.
Em termos de engenharia, o novo linhão será um chamado bipolo, com duas linhas paralelas em corrente contínua. O arranjo permite enviar energia por longas distâncias com menos perdas técnicas do que a corrente alternada, predominante no sistema elétrico nacional.
O projeto também usará a tecnologia VSC (Voltage Source Converter), inédita no Brasil. Ela é recomendada para integrar à rede fontes renováveis, que têm geração intermitente, com maior confiabilidade e estabilidade.
Os sistemas VSC vêm sendo amplamente utilizados na Europa, principalmente para conexão de projetos de geração eólica offshore, e também nos EUA e na China.
O “Corredor Expresso” ainda demandará mais obras para reforçar a rede, de outras linhas de transmissão, em corrente alternada. No total, consideradas todas instalações recomendadas, o investimento é estimado em R$ 25 bilhões, segundo a EPE.
O formato da licitação em que os projetos serão oferecidos a investidores ainda será avaliado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
No leilão do último mega-linhão, em 2023, a Aneel ofereceu o projeto em um lote único e em sublotes menores. Um consórcio da Alupar chegou a fazer ofertas pelos sublotes, mas apenas a State Grid fez proposta para ficar com o empreendimento completo.











