A ação da Totvs mergulhou quase 13% hoje em meio à continuação do selloff global das empresas de software e IT services. 

A ameaça de que a AI possa substituir serviços tradicionalmente oferecidos pelas empresas de software vem sendo cantada há meses – e começou a entrar no preço das empresas de software nas últimas semanas. 

A Totvs é a vítima da vez, mas Locaweb (-8,52%) e Bemobi (-6,96%) também sofreram no pregão de hoje. 

O estopim do selloff veio da notícia de que a Anthropic lançou novas ferramentas de automação de contratos para empresas, começando por softwares jurídicos.

O lançamento do Project Genie – uma ferramenta do Google DeepMind que permite projetar e explorar ambientes digitais personalizados – fomentou o movimento de saída em massa, apesar de ser uma inovação que não compete as empresas de SaaS. 

10889 18612d89 f228 0603 5343 9840d5e408e1

A notícia da Anthropic também impôs quedas acentuadas em empresas como Experian, LSE Group, Thomson Reuters e LegalZoom. 

A narrativa de que ‘software is dead’ vem machucando as empresas do setor há algum tempo: o ETF IGV, uma cesta de 120 empresas de software, acumula perdas superiores a 14% em poucas semanas, enquanto analistas descrevem o sentimento em relação ao setor como o pior já visto. 

Embora ainda haja a percepção de que a AI criará vencedores e perdedores, a incerteza sobre quem sobreviverá no mundo do SaaS tem levado investidores a sair do setor como um todo.

Para a Totvs, a dúvida é se a correção recente reflete os fundamentos reais da empresa.

“A Totvs vinha em um momento de outperformance frente ao restante da indústria por uma questão de fluxo estrangeiro,” disse Maria Clara Infantozzi, que cobre a empresa no Itaú BBA. “A Totvs é uma empresa premium, líquida, com bom earnings momentum, que o gringo gosta.”

No preview dos resultados da companhia, que serão divulgados semana que vem, o Itaú espera que a Totvs entregue mais um trimestre sólido no quarto tri, sustentado pelo bom desempenho de seu negócio de Management, com net new ARR de R$ 185 milhões, uma alta de 8% na comparação anual, e crescimento de 17% da receita líquida. 

A Totvs também anunciou essa semana a venda da Dimensa para a Evertec por R$ 1,4 bilhão, uma operação que o Itaú viu como positiva do ponto de vista estratégico. 

A transação deve gerar uma entrada líquida de caixa de R$ 285 milhões e melhorar a flexibilidade financeira da Totvs, permitindo maior foco em seus principais vetores de crescimento, como cloud, Linx e seu core de software de gestão.

Ainda assim, os investidores se dobraram à tese do momento. 

“É uma leitura dessa narrativa que está contaminando as ações. Não vejo nada específico em relação à empresa que justifique uma queda dessa magnitude,” disse Bernardo Guttmann, que cobre o papel na XP. 

Guttmann não vê os riscos da AI para a empresa brasileira como eles têm se colocado para gigantes globais do SaaS. Na semana passada, a alemã SAP mudou seu guidance e anunciou um aumento de capex e compressão de margens. 

“A Totvs tem características quase de uma utility, com softwares essenciais para empresas que querem ganhar eficiência,” disse Guttmann. “Como muitos de seus clientes são de porte médio, ela é muitas vezes um trusted advisor, que pega na mão do cliente e ajuda em diferentes iniciativas, inclusive, qual a melhor solução de AI.”

Além disso, a própria Totvs pode se beneficiar das oportunidades que a AI pode trazer, reduzindo o número de desenvolvedores e os custos – mas terá que encontrar novas formas de monetizar seu serviço para além da assinatura. 

“A AI vai reduzir o custo de coding: com isso a gente vai ver mais novos entrantes e o ambiente competitivo pode deteriorar, vamos começar a discutir preços declinantes e formas de monetizar diferentes,” disse Infantozzi.