A Tork Capital comunicou o encerramento de suas atividades na semana passada.

A casa tinha cerca de R$ 600 milhões em ativos sob gestão, divididos entre fundos long only, equity hedge (recém-lançados) e de previdência – um patamar insuficiente para manter o negócio rodando de forma lucrativa. 

“É a história de outras gestoras que devem fechar as portas nos próximos 6 a 12 meses,” um profissional do setor de fundos disse ao Brazil Journal.

Fundada em julho de 2018 com uma Selic em 6,5%, a Tork surgiu para fazer value investing com algum viés macro, combinando a expertise dos fundadores Marcelo Magalhães e Murilo Arruda.

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Magalhães foi analista da Investidor Profissional (hoje IP) e da M Square (hoje Velt Partners), duas gestoras especializadas em avaliar empresas de forma fundamentalista. (A Velt, aliás, decidiu mudar de estratégia recentemente, citando o encolhimento do mercado).

Antes de montar a Tork, Magalhães passou sete anos na JGP, onde foi portfolio manager e aprimorou sua visão macro. 

Arruda foi analista da M Square e da Verde, e deixou a Tork em 2021. Foi um portfolio manager na gestora de Luis Stuhlberger e, em 2024, fundou a Morada Capital, uma gestora de fundos de ações que hoje tem R$ 34 milhões em AUM.

“Algumas gestoras conseguiram se salvar com estratégias long & short para tentar ganhar com apostas relativas, mas não foi o caso da Tork,” disse esse profissional, citando o lançamento de três fundos equity hedge em 2025 – que, ao todo, captaram menos de R$ 20 milhões.

O fim da Tork vem num momento em que o Ibovespa subiu 50% nos últimos 12 meses – mas a alta foi alimentada pelo apetite de investidores estrangeiros que vêm comprando a Bolsa brasileira principalmente via índices, e não interrompeu a onda de resgates de fundos de ações.

De janeiro a março, os saques nos FIAs somaram 6,4 bilhões; em 12 meses, chegaram a R$ 25 bilhões.

Enquanto isso, a participação dos estrangeiros no volume de negócios da Bolsa, que era de 45% em 2019, subiu para 62% este ano. A fatia dos locais, pessoas físicas e institucionais, caiu de 50% para 35% neste intervalo. 

A maioria dos fundos não conseguiu antecipar o que o fluxo estrangeiro faria com o mercado – e ficou para trás. Em 12 meses, apenas 45% dos fundos long only e 17% dos long bias superaram o Ibovespa, segundo um levantamento da Outliers Advisory.

Mas a underperformance vem de antes. Em janelas de três e cinco anos, somente 34% dos long only tiveram retornos maiores que o do Ibovespa. No caso dos long bias, 16% e 26% respectivamente, de acordo com a Outliers. 

Os principais fundos da Tork ficaram no terceiro e quarto quartis em 12, 24, 36 e 60 meses.

“É um período longo em que poucos gestores foram capazes de bater o índice, mas é preciso lembrar que foi atípico,” diz um gestor de fundos de ações. 

Um exemplo: a Petrobras, que tem peso relevante no Ibovespa, subiu pós-Lava Jato e também quando o risco de intervenção no governo Lula diminuiu – e poucos conseguiram antecipar isso. “Não dava para correr esse risco.” 

Os críticos dizem que, se os gestores não são capazes de antecipar cenários, é melhor investir via ETFs, que cobram taxas bem menores. 

“É bom lembrar que o Ibovespa é uma representação muito pobre do mercado brasileiro. É concentrado em poucos setores cujo crescimento não é exponencial, diferentemente do que vemos nos EUA. Investir no índice pode ter compensado, mas achar que isso vai funcionar sempre é um equívoco,” diz esse gestor. 

Em sua página no LinkedIn, a Tork informou que está coordenando o fechamento dos fundos com os administradores e que haverá assembleias de cotistas se necessário.