Em 2018, o executivo português Nuno Saramago era um profissional exausto com o ambiente da Faria Lima. Não sentia prazer em conversar com os colegas, tinha pouca paciência com os subordinados e se incomodava até com a mesmice nos cardápios nos restaurantes da região.

O engenheiro mecânico, que vive no Brasil desde 1998, passou a trabalhar na CSN e decidiu espantar o tédio com um despretensioso curso semanal de teatro.

Foi uma epifania.

Saramago, de 55 anos, encontrou nas artes cênicas a inspiração para renovar seus modelos de gestão.

No livro Liderança em Cena – O que os Líderes Podem Aprender com Shakespeare e o Teatro (Portfolio-Penguin, 224 páginas), ele conta como descobriu a importância da coletividade na tomada de decisões e aplicou os aprendizados na esfera profissional. (Compre aqui)

“Encontrei em uma sala preta com uma turma diversificada tudo o que procurava,” ele disse ao Brazil Journal. “Meus colegas, a maioria entre 20 e 35 anos, pertenciam a um mundo diferente do meu: alguns trabalhavam como garçom, frentista… vinham de escolas públicas, e todos queriam ser artistas.”

Saramago enxergou nestas pessoas os próprios funcionários e, no decorrer do curso, entendeu a importância da escuta ativa e da experimentação em nome da inovação.

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Inspirado em personagens de William Shakespeare (1564-1616), ele abriu a cabeça para as questões humanas, promoveu treinamentos que impactaram as equipes, e trouxe resultados financeiros e de segurança para uma empresa deficitária e recordista de acidentes, a Prada, uma fabricante de latas e embalagens de aço.

Em 2020 ele assumiu a Prada, “o patinho feio da CSN, e graças ao teatro superei esse desafio tão complexo,” disse Saramago, que fez um turnaround pautado na segurança psicológica e na tolerância ao erro.

Para ele, as obras de Shakespeare lidam com relações de poder, autoridade e reflexos políticos – exatamente como as grandes corporações.

Com o personagem Henrique V, da peça homônima, Saramago aprendeu a importância de compartilhar mensagens de motivação. Rei Lear, o monarca que decide dividir o poder entre as três filhas, mostra que o excesso de convicção pode levar qualquer profissional ao buraco, enquanto Ângelo, da menos conhecida peça Medida por Medida, ensina a desconfiar dos excessivamente apregoados.

Por outro lado, o sanguinário Ricardo III é um tipo comum no mercado. 

Segundo Saramago, nada é mais antigo do que a ideia de fazer as coisas acontecerem a qualquer custo, e este comportamento destrói relações e compromete a produtividade.

“Eu, muitas vezes, me comportei como um Ricardo III,” reconhece. “Depois dos almoços de domingo, na minha casa, disparava e-mails sem qualquer urgência só para manter meus funcionários em estado de alerta.”    

Com base em teorias de interpretação, como a do russo Constantin Stanislavski (1863-1938), Saramago percebeu a necessidade de valorizar o aqui e agora, a essência do ato teatral, e reforçar sua identidade para convencer os outros de suas ideias.

Hoje o executivo encara os desafios diários como uma nova cena que se impõe, e ele precisa resolvê-la com sua experiência para que seja compreendida pela maioria.  

Claro que são inúmeras as resistências encontradas. Existe a descrença (até o deboche) de seus pares, e o líder recorre aos bobos da corte criados por Shakespeare para responder com leveza aos questionamentos relativos à eficácia de seus métodos. 

“Falar as verdades, mesmo as mais duras, com humor cria um ambiente leve que faz com que elas sejam bem-aceitas,” ele me disse. “A questão é que tem gente decidida a não se abrir a novas ideias e, mesmo com resultados comprovados, ainda ouço que fiquei maluco.”

Nem tudo o que foi observado no meio teatral faz sentido em uma empresa. Um ponto destacado por Saramago é que, enquanto os executivos aceleram demais a concretização dos objetivos, o artista está sujeito a se prolongar na preparação e adiar a execução. Isto faz com que se percam prazos e a hora certa de se comunicar com o público.

De seus antigos hábitos, Saramago mantém a prática diária da natação. Só usa terno e gravata em eventos formais, e aderiu ao jeans, camisetas e tênis no dia a dia. Suas reuniões são rápidas e, como um diretor teatral em um ensaio, prefere ouvir do que falar, interferindo só quando vê a necessidade de solucionar um problema.

Saramago lidera duas mil pessoas na CSN e raramente ultrapassa o limite das 18h no escritório, incentivando seu time a seguir o modelo. Casado com a coach para executivos Susana Azevedo, é pai de três filhas. Maria Leonor, de 23 anos, está na reta final do mestrado em ciências e tecnologia na Suíça; e Maria Beatriz, de 19, estuda sociologia na Holanda. A caçula, Maria Sofia, de 12, faz aulas de teatro em paralelo ao colégio, em São Paulo. “Aposto que quem se sairia melhor em uma empresa é a Maria Sofia, que desde agora se mostra mais sagaz,” disse o pai.

Contraintuitivamente, ele reconhece que frequenta pouco os teatros. As duas últimas peças que despertaram a sua atenção foram justamente O Mercador de Veneza e Hamlet, Sonhos que Virão, adaptações das obras de Shakespeare em cartaz em São Paulo. Além do bardo inglês, admira o alemão Bertolt Brecht (1898-1956), o norueguês Henrik Ibsen (1828-1906) e o brasileiro Plínio Marcos (1935-1999).

Saramago acredita que devolveu a humanização a uma área pouco afeita à sensibilidade. Pretende traduzir o livro para o inglês e investir no ramo das palestras para que outros executivos entendam o que demorou a enxergar.

“A vida dos gestores atualmente é muito próxima da dos artistas,” compara. “Eles se envolvem a cada temporada com novos projetos, e o contato humano precisa se fazer presente em uma área tão endurecida.”