O pacote de resgate que o BNDES vai estender às empresas em dificuldade incluirá linhas de crédito com warrants [opções de compra de parte do capital], um sinal de que o banco quer dividir a conta da ajuda com os atuais acionistas das companhias.
 
O uso de warrants em pacotes de resgate ficou conhecido na crise de 2008, quando a Berkshire Hathaway emprestou dinheiro a gigantes como General Electric e Goldman Sachs em troca de warrants que rendiam dividendos de 10% ao ano e podiam ser convertidos em ações ao fim de cinco anos.
 
Apesar de estar sendo chamado de “o pacote das aéreas,” o plano que está sendo desenhado servirá também para outros setores da economia onde o Ministério da Economia já identificou vulnerabilidades, como mobilidade urbana, varejo, saúde e bens de capital.
 
Só para as três grandes companhia aéreas — Azul, GOL e LATAM — fontes do banco estimam que o BNDES vai estender um total de R$ 10 bilhões em linhas de crédito. A ideia é que as linhas suportem o funcionamento das empresas num período de 12 meses, um prazo suficientemente longo para que a vida volte ao normal.
 
Além disso, haverá linhas separadas para as companhias regionais e as prestadoras de serviço das aéreas, como empresas de catering e manutenção.
 
“O crédito em si será a taxas baixas para não onerar a operação,” diz uma fonte envolvida na estrututuração. “Queremos manter a relevância que essas empresas tem na economia e os empregos que elas geram.”   
 
Os credores atuais tambem estão sendo instados a colaborar.  O BNDES está incentivando as companhias a negociar com os credores um prazo de carência na dívida, e o custo das linhas será tanto menor quanto maiores forem as concessões obtidas pelas empresas.  “A mensagem é que todos temos que ser parte da solução,” diz um executivo do banco.
 
O banco deve ter o programa pronto (e o dinheiro disponível para as empresas) até a primeira semana de maio, mas a partir daí o desembolso deve ser rápido, porque as aéreas estão participando ativamente das discussões e já conhecerão todas as regras quando elas forem anunciadas.
 
Ao rodar o modelo com as pemissas que estão na mesa, o BNDES estima que poderá deter de 20% a 25% do capital das aéreas se exercer os warrants.
 
Para maximizar seu poder de fogo, o banco também está incentivando as empresas a buscar co-investidores privados para entrar nas mesmas condições.
 
Os contornos do plano mostram que o banco estatal está buscando saídas mais próximas do que seriam soluções de mercado, distanciando-se das linhas subsidiadas que marcaram a história do banco. Como disse uma fonte, “é a custo de mercado, se houvesse mercado.” 
 
O desenho do pacote está sendo tocado pelo presidente do banco, Gustavo Montezano, o diretor de privatizações, Leonardo Cabral, e o assessor estratégico da presidência, Lourenço Tigre.
 
A mudança de prioridades ilustra o impacto da crise na economia real.  Três semanas atrás, este mesmo time estava focado em vender a carteira de ações da BNDESPar. Entre o final do ano passado e o início de 2020, já haviam reduzido a carteira de R$ 125 bilhões para R$ 100 bilhões, com operações de venda de Marfrig, Light e Petrobras.  
 
Depois da queda das bolsas, o valor de mercado da carteira do banco está em cerca de R$ 70 bilhões — e o foco é outro.