Se o curto prazo parece de céu aberto para a Localiza, as nuvens da reforma tributária já aparecem para ameaçar o futuro.

Um relatório do Itaú BBA apontou que a reforma pode reduzir em até 20% o EBITDA por carro da maior locadora do País quando estiver totalmente implementada em 2033.

Segundo o time liderado por Daniel Gasparete, para manter a rentabilidade o CEO Bruno Lasansky teria que  aumentar as tarifas em 16%.

“Esperamos que esse tema traga volatilidade periódica à ação à medida que o debate dos investidores sobre a reforma evoluir,” escreveram os analistas.

Bruno Lasansky ok

As contas do Itaú apontam que hoje a Localiza opera praticamente com um imposto efetivo próximo de zero sobre suas receitas de aluguel.

Isso porque, apesar de pagar 9,25% de PIS/Cofins, a Localiza compensa quase integralmente esse valor com créditos fiscais gerados pela depreciação acelerada da frota.

(A venda de seminovos é isenta de PIS, Cofins e ICMS, desde que o carro tenha ficado ao menos 12 meses na frota.)

O governo estabeleceu um período de transição entre 2026 e 2032, com alíquotas crescentes. Em 2027, o IVA total será de 8,9%, chegando a 26,5% apenas em 2033.

Com isso, a Localiza vai passar a ter uma alíquota de aproximadamente 21% sobre a receita bruta ao fim do processo de transição.

Logo, a taxa efetiva de deduções da Localiza passaria dos 0% de hoje para algo próximo de 7% da receita bruta ao fim de 2033. 

Os analistas do Itaú fizeram as contas e calcularam o efeito na economia unitária na empresa.

No segmento de rent a car, o EBITDA por carro cairia já 8% em 2027 e chegaria a 21% em 2033 – se nada mudar, é claro. Para zerar esse impacto, a Localiza precisaria aumentar as tarifas em até 17%. 

Já no braço corporativo – que representa 75% da receita da Localiza – o impacto seria menor: 5% no EBITDA por carro em 2027 e 18% em 2033. 

Isso acontece porque as empresas podem usar o imposto pago no aluguel como crédito tributário – e descontar esse valor do imposto que elas precisam pagar ao governo (algo que não acontece com as pessoas físicas).

Apesar de um futuro um pouco mais nebuloso, as regras de transição vão ajudar a Localiza no curto prazo. 

Até 2027 e 2028, a Localiza ainda estará vendendo carros comprados antes da implementação do novo regime fiscal — que continuam isentos de IVA na revenda. Ao mesmo tempo, já estará comprando veículos sob o novo sistema, gerando créditos tributários.

O resultado é um impacto relevante no free cash flow: cerca de R$ 1,5 bilhão positivo em 2027 e R$ 400 milhões em 2028.

O problema é que, a partir de 2029, essa conta vira negativa e passa a ser estrutural, saindo de R$ 518 milhões negativos naquele ano e aumentando até cerca de R$ 3,8 bilhões negativos em 2035.

Os analistas também alertam para a atenção do mercado com o ROIC spread – que mede a diferença entre o retorno sobre o capital investido e o custo de capital. Isso porque parte relevante do valor pago pelos veículos passará a ser registrada como “IVA a recuperar”. 

Por exemplo: em um carro de R$ 100 mil, cerca de R$ 21 mil seriam reconhecidos como crédito tributário e apenas R$ 79 mil como imobilizado – reduzindo gradualmente o capital investido em cerca de 20%.

Assim, embora o EBITDA por carro no segmento corporativo possa cair aproximadamente 18%, o ROIC spread pode permanecer praticamente estável.

“Acreditamos que essa métrica pode passar por alguns ajustes contábeis que exigirão atenção ao ser comparada com níveis históricos, já que a reforma tributária pode reduzir os ativos líquidos da companhia relacionados aos veículos reconhecidos em seu balanço,” escreveram os analistas. 

Mesmo com a reforma como um novo risco estrutural, os analistas destacam que a ação vem sendo sustentada por um ambiente macro mais favorável – com fluxo para bolsa e expectativa de queda de juros – além da melhora operacional na venda de seminovos.

Por isso, o Itaú segue construtivo para a tese e manteve a recomendação de compra, vendo a Localiza negociar a 13,5x lucro para 2026 e 10,5x para 2027. 

O banco manteve o preço alvo do papel em R$ 54, um upside potencial de 4% em relação ao preço de tela – a empresa sobe 92% nos últimos doze meses. 

A Localiza vale R$ 58,3 bilhões na B3.