Bet, não: bolão.

Essa é a premissa da Prévias, uma startup de prediction markets fundada por Arthur Farache e Leonardo Rebitte, sócios da plataforma de investimentos alternativos Hurst Capital.

Rebitte chegou à Hurst no ano passado com a ideia de criar sua própria empresa de prediction markets – que começava a explodir nos Estados Unidos com a popularização da Kalshi e da Polymarket.

“Quando ele me veio com essa ideia, eu falei que só faria se não existisse um limbo jurídico,” Farache disse ao Brazil Journal.

Foi aí que começou a engenharia regulatória. Enquanto nos Estados Unidos esse tipo de mercado é estruturado como derivativo e é permitido ao público em geral, por aqui o formato só permitiria a participação de investidores qualificados.

Ou seja: na prática, ficaria limitado apenas à Faria Lima – acabando com a tese de escala.

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A saída encontrada pela Prévias foi enquadrar o produto como investimento coletivo. Para isso, os fundadores compraram a InvestWeb, uma empresa já autorizada pela CVM a operar como crowdfunding, mas que estava inativa.

A partir dessa licença, a Prévias passou a ser estruturada como um pool de investimento coletivo e a operar no mesmo modelo dos prediction markets: todos os participantes colocam dinheiro em um mesmo “pote” e, ao final, o valor é redistribuído entre os vencedores, descontadas as taxas da plataforma.

(No caso das bets, há uma definição das odds pela própria casa e boa parte das apostas perdidas fica com a banca.) 

“Na prática, a gente regularizou o bolão,” disse Farache.

Segundo ele, essa arquitetura resolveu dois problemas ao mesmo tempo: manteve o produto dentro da regulação da CVM (evitando o enquadramento como bet) e permitiu que a Prévias fosse oferecida ao varejo. 

Agora a startup tenta escalar o negócio, que ainda é pequeno: a plataforma tem 1.500 usuários e movimentou só R$ 35 mil desde seu início há dois meses.

A maior parte das apostas na plataforma é relacionada à política, como as chances de reeleição do Presidente Lula e os favoritos nas corridas estaduais; outras são mais heterodoxas, como o provável vencedor de um campeonato de fisiculturismo.

Farache acredita que os números da empresa devem crescer rapidamente nos próximos meses graças a parcerias com instituições financeiras e influencers.

No caso dos influenciadores, a ideia é estimulá-los a criar seus próprios “bolões” em troca de uma fatia fixa do montante – cerca de 6%. 

Segundo ele, a Prévias está próxima de fechar a integração da sua plataforma no aplicativo de um grande banco digital – e está em conversa com outro.

“São milhões de usuários que vão passar a ter acesso à plataforma,” disse.

É um modelo similar ao que a XP fez com a Kalshi, numa parceria estratégica anunciada no mês passado. Com um detalhe: os clientes da marca Clear têm acesso aos prediction markets somente no ambiente offshore da XP. “Aqui nós fazemos tudo em real,” disse Farache. 

No fim do mês passado, o BTG Pactual também lançou o BTG Trends, sua plataforma de contratos derivativos que por enquanto está sendo disponibilizada apenas a investidores com perfil arrojado.

Enquanto isso, as bets estão se mexendo para evitar o crescimento desse mercado. O Instituto Brasileiro do Jogo Responsável (IBJR) disse que os prediction markets não são algo inovador, e que permitir que operem fora do regime das apostas pode gerar consequências como “concorrência desleal, fragilização da proteção ao consumidor, ameaça à integridade esportiva e perda de arrecadação fiscal.”

“A experiência internacional reforça essa leitura. No Reino Unido, tais produtos são claramente tratados como apostas,” disse Andre Gelfi, presidente do IBJR. 

Para Farache, a comparação é equivocada porque as empresas de prediction markets não operam contra o investidor, funcionam apenas como infraestrutura.

“Bet hoje no Brasil mistura aposta esportiva com cassino, e boa parte da receita vem disso,” disse Arthur. “Aqui não tem cassino, não tem tigrinho: é uma operação dentro do mercado de capitais, como qualquer investimento.”

Mas que tem hora que parece bet, parece.