A ação do PicPay chegou a cair 15% hoje depois de despencar outros 22% ontem, mesmo com o banco digital dos irmãos Batista reportando um resultado acima das projeções e passando um guidance para o primeiro tri que também surpreendeu positivamente. 

No meio da tarde, a queda havia reduzido para 6,2%.

O Brazil Journal conversou com analistas, investidores e fontes próximas à empresa, e a hipótese mais provável é que a queda tenha a ver com uma rotação da base acionária pós-IPO — algo comum, principalmente quando a base tem muitos hedge funds.

“O papel tem uma liquidez muito baixa, então se alguns investidores maiores resolvem vender já causa esse efeito,” disse um analista que acompanha o papel.

Esse analista lembra que as condições macro mudaram significativamente desde o IPO do PicPay no final de janeiro, com o início da guerra do Irã e um aumento brutal na volatilidade dos mercados. 

“No IPO, acabam entrando investidores dos EUA que não tem muito compromisso com o papel. Talvez alguns deles estivessem esperando uma surpresa maior no resultado, e como não veio, venderam,” disse este analista. “É a única explicação que consigo achar, porque em termos de fundamentos esse movimento não faz sentido.”

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Uma fonte próxima ao PicPay disse ao Brazil Journal que dois hedge funds que tinham posição grande na empresa venderam nos últimos dias. Um deles, que tinha cerca 400 mil ações, zerou sua posição.

Segundo essa fonte, a venda teve a ver com a mudança no cenário macro global, que tem forçado fundos a um movimento de-risking, mas também com um pushback em relação à estratégia do PicPay. Este fundo em particular não teria gostado do fato da empresa comandada por Eduardo Chedid estar saindo do crédito FGTS para crescer no consignado privado, um produto que tem um risco um pouco maior e demanda provisões maiores na cabeça.

“O PicPay está saindo de um produto no-risk para um low-risk, mas que ainda tem um risco muito baixo. E a margem ajustada ao risco (NIMAL) do consignado privado é 2,5x maior que a do FGTS,” disse esta fonte. 

No quarto tri de 2025, o PicPay reportou um lucro líquido de R$ 188 milhões, um aumento de 182% ano contra ano — superando o guidance da própria empresa (que era de R$ 129 milhões a R$ 143 milhões) e as projeções do sellside.

O Bank of America, por exemplo, projetava um bottom line de R$ 134 milhões; o Citi esperava R$ 104 milhões. 

Outro destaque positivo foi a carteira de crédito do PicPay, que cresceu 128% ano contra ano para R$ 24,1 bilhões, impulsionada principalmente pelo consignado privado (a principal aposta do PicPay hoje).

No trimestre, a carteira cresceu R$ 4,4 bilhões, com 90% disso vindo do consignado privado.

Junto com o resultado, o PicPay divulgou também seu guidance para o primeiro tri de 2026, dizendo que espera entregar um lucro líquido de R$ 155 milhões, 107% maior que o do mesmo período do ano passado, mas 17% menor que o do quarto tri por uma questão de sazonalidade. 

O guidance veio 10% acima do consenso e 17% acima da projeção do Bank of America. 

Do lado negativo, o PicPay viu um aumento de inadimplência, com o NPL 90 dias fechando em 7,2% em comparação aos 6% do terceiro tri e aos 4,2% do quarto tri de 2024. Essa alta teve a ver com o crescimento da carteira de cartões de crédito do banco, no modelo chamado de ‘progressive limit’.

Assim como o Nubank fez no começo, o PicPay está liberando um limite baixo de crédito para alguns clientes como forma de crescer sua base. Conforme a empresa vai aprendendo sobre o comportamento dos clientes e ganhando confiança, ela aumenta o limite para o padrão. 

As despesas operacionais também cresceram significativamente, em 56,4% ano contra ano, mas abaixo do crescimento da receita, que se expandiu em 68,7%, para pouco mais de R$ 3 bilhões. 

Depois da queda dos últimos dias, o PicPay vale cerca de US$ 1,45 bilhões na Nasdaq, negociando a cerca de 8x seu lucro estimado para este ano. 

Os maiores acionistas da companhia são a J&F Participações, com 66,7% do capital, seguida pelo Banco Original, com 7,8%, e pela Bicycle Capital, a gestora de Marcelo Claure, que tem 3,6%.

A Bicycle foi quem ancorou o IPO da companhia e tem um lockup de 180 dias para vender suas ações.