Em 1999, o ex-Oracle Marc Benioff apresentou ao mundo a sua startup, a Salesforce, com uma ambiciosa missão: The end of software.

Foi o início da computação em nuvem. Em vez de comprarem programas, as pessoas e empresas passaram a contratar assinaturas dos serviços de software as a service (SaaS), como os das plataformas de customer relationship management (CRM).  

Hoje, no entanto, são as empresas de SaaS – como a própria Salesforce – que estão sendo ameaçadas de morte pela revolução dos agentes de inteligência artificial.

As ferramentas apresentadas recentemente pela Anthropic e a OpenAI derrubaram as ações das companhias de software ao redor do mundo, levando a perdas de US$ 1 trilhão em valor de mercado.

William Cordeiro, o sócio fundador da SaaSholic, uma gestora de venture capital especializada em empresas de software, pondera que a “a morte do SaaS” é uma “narrativa preguiçosa, porque as pessoas tendem a colocar vários tipos de negócios dentro de uma mesma categoria.”

Nvidia

Nos últimos anos, as empresas ‘horizontais’ – as que desenvolvem uma infraestrutura que pode ser usada por companhias de diversos setores, como no caso de um CRM – começaram a ser desafiadas por empresas de software com uma estratégia ‘vertical’, isto é, que focam em setores específicos, como é o caso da Toast, especializada em ferramentas tecnológicas para restaurantes.

“Então, a estratégia para você construir um business vencedor de software é ser o system of record (SOR, fonte confiável de informações e uma companhia). Se amanhã você tiver que migrar para um outro sistema, você terá que tirar todos esses dados e transferir para essa outra solução. Se eu sou o single source of truth, você vai pensar duas vezes antes de me trocar por outro fornecedor,” disse Cordeiro. “Por isso é muito difícil uma empresa fazer a migração de sistema, quando tem contratado com empresas como SAP, Totvs ou Oracle.”

As prestadoras que possuem repositórios de dados e as informações do fluxo de trabalho conseguem se defender melhor da ameaça representada pelas novas competidoras de AI.

“Empresas como Toast e Veeva Systems (líder global em nuvem para ciências da vida), por atuar em apenas um nicho, quanto mais dados proprietários elas detêm, mais forte acaba sendo o negócio delas,” disse Cordeiro. “Elas já conquistaram um patamar de system of record.”

O CEO da Nvidia, Jensen Huang, contestou a percepção de que a AI irá decretar o fim do SaaS. “Essa noção de que a indústria de software está em declínio e sendo substituída por IA é a coisa mais ilógica do mundo – e o tempo provará isso,” afirmou Huang em uma entrevista na terça-feira, durante a Cisco AI Summit.

Segundo ele, a AI empregará ferramentas existentes em vez de reinventá-las – auxiliando as plataformas de software já existentes.

O que causa apreensão entre os investidores é o tamanho do impacto sobre os resultados financeiros do setor. Essas empresas historicamente negociavam com múltiplos elevados por serem negócios altamente escaláveis, de margens suculentas e receitas relativamente estáveis.

“Se você olhar a arquitetura de uma empresa de software, ela tem margens brutas muito altas. Porque depois que eu construí a ferramenta, eu vendo a licença de uso e meu custo marginal ele vai tender a zero,” disse Cordeiro.

Até recentemente, os papeis do setor mantinham prêmios consideráveis em relação a outros do S&P 500. Isso, entretanto, já mudou.

As ações de software caíram 15% na última semana, tendo como referência um índice que acompanha os papéis do setor. Desde o pico de valorização em setembro, o recuo fica ao redor de 30%.

Com essa correção brutal, o múltiplo P/E projetado caiu para 20x, o número mais baixo desde 2014, de acordo com a Goldman Sachs. Em 2025, antes do início do tombo, o múltiplo era de 35x.

“Apesar disso, o consenso atual para as estimativas de margens e crescimento do faturamento estão nos patamares mais elevados em pelo menos vinte anos – cerca do dobro da média do S&P 500,” disse a Goldman. “O declínio nos valuations indicam que essas expectativas deverão também ser rebaixadas.”

De acordo com os analistas do banco, os episódios históricos de grandes riscos de ruptura tecnológica sugerem que “a estabilização no preço das ações depende da estabilização na perspectiva de lucros.”

Uma análise do Wall Street Journal disse que a “AI não vai matar o negócio de software, mas apenas a sua história de crescimento.”

Se for isso, já não será pouco.