“Sam Altman poderá controlar o nosso futuro – será que podemos confiar nele?”

A pergunta, estampada no título da reportagem de capa da edição desta semana da New Yorker, dá uma pista do que vem pela frente.

Em um extenso texto, rico em detalhes, a tradicional revista americana traz novas informações e mais nuances sobre episódios já conhecidos de disputa de poder e a respeito da personalidade do CEO da startup mais comentada da atualidade – responsável pela criação do ChatGPT, a ferramenta de inteligência artificial mais usada ao redor do planeta.

No relato, construído a partir da conversa com dezenas de pessoas que se relacionaram com o CEO da OpenAI – incluindo amigos, inimigos, atuais e ex-integrantes da OpenAI, além do próprio Altman – o que emerge é uma personalidade com ambição por reconhecimento e poder extremamente elevada, até mesmo para os padrões desmedidos do Vale do Silício.

IMG 1517

“Altman não se deixa limitar pela verdade,” disse aos repórteres Ronan Farrow e Andrew Marantz um dos integrantes do conselho da OpenAI. “Ele tem duas características que quase nunca se veem na mesma pessoa. A primeira é um forte desejo de agradar todo mundo, de ser querido em qualquer situação. A segunda é uma falta de preocupação quase sociopática com as consequências que podem advir de enganar alguém.”

O adjetivo “sociopata” foi usado por mais de um entrevistado para descrever o comportamento de Altman, de acordo com a revista.

A revista trouxe novos bastidores da disputa que levou à demissão – depois revertida – de Altman no final de 2023.

O então cientista-chefe da OpenAI, Ilya Sutskever, havia circulado um memorando questionando se Altman era apto para comandar a empresa. O texto argumentava que o CEO havia distorcido fatos para os conselheiros e que os havia enganado sobre os protocolos de segurança.

O memorando afirmava que Altman demonstra uma constante propensão a mentir. Alguns de seus colegas acreditavam que ele não era confiável o suficiente para “ter o dedo no gatilho,” como um deles disse à revista.

Mas Altman conseguiu reverter o afastamento. Convenceu os financiadores da empresa de que deveria ficar – e muitos de seus desafetos deixaram a OpenAI em seguida.

“Altman talvez seja a pessoa mais influente em uma área que está transformando o mundo e seu futuro,” o editor David Remnick escreveu na newsletter da revista. “Ele prometeu certa vez ser um gestor zeloso da AI ​​e liderar a empresa unicamente em benefício da humanidade. Mas a OpenAI se tornou uma empresa com fins lucrativos, e Altman voltou atrás em alguns de seus compromissos com a segurança.”

A reportagem lista uma série de compromissos de segurança públicos e internos que teriam sido abandonados.

As questões relativas à segurança da tecnologia foram uma das razões que levaram Dario Amodei a deixar a OpenAI e fundar sua própria startup, a Anthropic – cuja receita anualizada já atingiu US$ 30 bilhões, superando a OpenAI.

Os repórteres tiveram acesso a dezenas de páginas de anotações particulares que Amodei fez durante seus anos na OpenAI. Em um dos documentos, ele escreveu que as palavras de Altman “eram quase certamente bobagem” – não eram para ser acolhidas pelo seu valor de face.

Falando à revista, Altman atribui as críticas à sua tendência de “evitar conflitos em excesso” – especialmente no início de sua carreira.

A matéria descreve também como executivos da OpenAI planejaram ganhar dinheiro explorando a rivalidade entre potências mundiais – incluindo China e Rússia –, o que poderia envolver a venda de tecnologia avançada. O plano teria sido abandonado depois que vários funcionários falaram em pedir demissão. Segundo a OpenAI, esse foi apenas um de vários projetos debatidos pelo “alto comando”.

A respeito das alegações e revelações da reportagem como um todo, a assessoria de imprensa da empresa declarou que “grande parte do artigo revisita eventos previamente relatados por meio de alegações anônimas e anedotas seletivas provenientes de pessoas com agendas evidentes.”