A Petrobras decidiu cancelar o processo de venda de Urucu depois que a estatal e a Eneva não conseguiram chegar a um acordo sobre o preço do polo de petróleo e gás incrustado no coração da Amazônia.

O processo começou em junho de 2020 – com as ofertas vinculantes enviadas em novembro daquele ano – e foi conturbado desde o início.  

A Eneva e a 3R Petroleum colocaram propostas, e a 3R inicialmente parecia ter levado o ativo com uma oferta de US$ 1,1 bi.  Mas a empresa não apresentou as garantias exigidas, o que levou a Petrobras a cancelar a etapa vinculante e retomá-la, negociando exclusivamente com a Eneva, há exatamente um ano.

Para a Eneva o valor de Urucu estava em acessar e monetizar um volume de gás hoje não explorado no polo – o que demandaria investimentos pesados. Dados da ANP mostram  que Urucu tem reservas de aproximadamente 40 bcm de gás – e apenas metade desse volume esteja comprometido com os atuais contratos do ativo.

Mas desde que as conversas começaram, duas coisas mudaram, levando ao desfecho  de hoje.

Primeiro, o barril do Brent passou de US$ 50 para US$ 90. Isso é importante porque Urucu é majoritariamente produtor de óleo (o gás dá prejuízo) – e a Petrobras tentou extrair o máximo valor do ativo levando em conta a escalada do petróleo.  Na Eneva, o CEO Pedro Zinner relutava em fechar negócio, temendo pagar o preço do pico do mercado.

Em paralelo, a Eneva obteve sucesso em sua campanha exploratória nos campos de Azulão e Juruá, na Bacia do Amazonas, e considera hoje ter mais gás do que destinação para ele. 

A companhia disse ontem que suas reservas de gás no campo de Azulão chegaram a 11,8 bcm, enquanto os chamados recursos contingentes no campo de Juruá – que não carregam a mesma certeza geológica que as reservas 2P  – atingiram 21 bcm.

Como o volume de gás nestes dois campos é o equivalente às reservas que a empresa tem no Maranhão – e suficiente para desenvolver termelétricas de centenas de megawatts – Urucu perdeu prioridade na agenda da Eneva.

Para entender a ordem de grandeza: os 30 bcm que a Eneva tem no Maranhão (a chamada Bacia do Parnaíba) são suficientes para alimentar seu parque termelétrico de 2 gigawatts até 2048.

Já o potencial de uso do gás no Amazonas ainda é pequeno, por comparação. A Eneva está ligando hoje à termelétrica de Jaguatirica, em Roraima, que tem 140 megawatts; além disso, a companhia ganhou em dezembro o leilão para uma nova térmica, Azulão, de 300 megawatts.  

Se decidir investir mais em gás, a Eneva ainda pode ter uma chance de comprar mais reservas no Amazonas. A Rosneft, o terceiro player de petróleo na região, está devolvendo à ANP blocos com aproximadamente 15 bcm de recursos contingentes, que deverão ser leiloados em breve pela ANP.