SANTA BÁRBARA DO SUL – Num evento aqui com milhares de produtores rurais, os irmãos Luiz Osório e João Marcelo Dumoncel, respectivamente o chairman e CEO da 3tentos, circulam entre os convidados quase como celebridades.
Todos querem falar com eles, pedir conselhos ou contar o que andam fazendo em suas propriedades. Todo ano desde 2016, os irmãos Dumoncel reúnem os produtores gaúchos na CropShow, um evento no centro tecnológico da companhia que mostra as novidades do setor antes do início da colheita da soja, e onde compartilham os planos da 3tentos, que os irmãos fundaram 30 atrás e hoje vale quase R$ 8 bilhões na Bolsa.
Este ano, cerca de 4.500 produtores de diferentes regiões do estado estiveram no evento, lotando hotéis num raio de quase 100 quilômetros. Os maiores clientes recebiam atenção redobrada.

Nos três dias de evento, logo antes do Carnaval, a 3tentos martelou algumas mensagens à exaustão.
A principal delas: sem gestão eficiente nas propriedades, os agricultores dificilmente vão conseguir superar as três pragas que têm sufocado o agronegócio – preços de grãos em baixa, custos em alta e juros na lua.
E, pra piorar, o clima seco segue cobrando seu preço no Sul.
“Infelizmente é a quarta estiagem em cinco anos que enfrentamos no Rio Grande do Sul. Também não é a primeira vez que a gente verifica descompressões de preços de insumos ou das commodities agrícolas,” Luiz Osório, que ocupa a presidência do conselho desde abril de 2025, disse ao Brazil Journal. “Sempre enfrentamos isso de forma responsável, fazendo gestão de risco e tendo como parceiros produtores rurais que têm uma visão de longo prazo.”
Num cenário onde a soja domina, a 3tentos tem tratado a canola como uma cultura que pode ser a salvação da lavoura no Sul.
A empresa incentiva os produtores a plantar a oleaginosa na segunda safra como uma alternativa mais rentável ao trigo, a tradicional cultura de inverno no Rio Grande.
Hoje a companhia transforma canola e soja em biodiesel em uma fábrica na vizinha Ijuí que produz 850 mil metros cúbicos de combustível, mas já pediu à Agência Nacional de Petróleo autorização para fabricar 1,3 milhão de m3.
Outra unidade da companhia, em Vera, no Mato Grosso, tem capacidade de produção de 1 milhão de m3 e também está em processo de ampliação – lá o biodiesel é feito apenas com soja.
A 3tentos está em biocombustíveis desde 2014, mas a aprovação da Lei do Combustível do Futuro, em 2024, fez a companhia dobrar a aposta.
A lei aumenta a adição de biodiesel no diesel gradativamente, de 15% hoje para 20% até 2030. Hoje a produção de biocombustíveis representa cerca de 30% do faturamento da 3tentos, mas consome boa parte do seu capex.
Com o dobro de teor de óleo da soja, a canola vive seu auge no Rio Grande do Sul. O cultivo explodiu, de 80 mil hectares em 2024 para 220 mil em 2025, e deve chegar a 400 mil hectares este ano.
E a expectativa é ultrapassar o 1 milhão de hectares até 2030.

“Hoje a canola vale 10% a mais que a soja. Nunca aconteceu isso,” disse Tiago Librelotto Rubert, fundador da Terra Boa Agrícola, uma empresa gaúcha que planta soja, milho e tem pecuária. “Diante do apelo financeiro, vamos mais que duplicar a área de canola este ano, para 1.500 hectares.”
Mas o “plantem mais canola” não foi a única mensagem dos Dumoncel para os produtores. Para eles, uma pecuária mais estruturada precisa avançar em paralelo nas propriedades voltadas à agricultura.
O modelo de negócios da 3tentos se baseia na exploração de “coprodutos” que alongam sua relação com os produtores rurais – que vai da venda de insumos para o plantio ao esmagamento dos grãos e, por fim, à comercialização de farelos e biocombustíveis.
Foi assim que em três décadas a companhia passou de uma distribuidora de sementes de soja geneticamente modificadas para uma revenda de insumos agrícolas, antes de entrar em trading e no setor de biocombustíveis.
“A 3tentos foi a primeira empresa a verticalizar seu negócio no Rio Grande do Sul porque as revendas tradicionalmente não têm uma indústria por trás, não têm essa capacidade de produção,” disse Guilherme Palhares, que cobre a empresa no Santander. “Isso cria uma situação de codependência. A empresa precisa do grão para a indústria e acaba fornecendo um sistema melhor para o fazendeiro.”
Agora com a pecuária, a companhia quer ampliar ainda mais o ecossistema no seu entorno. Enquanto os óleos de soja e canola são a fonte para a produção de biodiesel, os farelos desses grãos são a base da alimentação animal.
O mesmo vale para o milho. A 3tentos inaugura nas próximas semanas uma usina de etanol de milho em Porto Alegre do Norte com capacidade para processar 2,1 milhão de toneladas. O que sobra do processo de produção é o chamado DDG, dried distillers grains, um subproduto rico em proteínas e fibras, com alta digestibilidade, e hoje uma alternativa econômica para a alimentação do gado, de suínos e aves.
Com a nova usina de etanol, o negócio de biocombustível deve representar de 30% a 35% do faturamento da 3tentos, estimado em R$ 16,8 bilhões em 2025 pelo Santander, um aumento de 31% sobre o ano anterior.
“Quanto mais o Brasil ficar forte em biocombustíveis, mais competitiva será a carne brasileira,” disse João Marcelo Dumoncel, o CEO da 3tentos. “Então, essa combinação biocombustível-carne é a grande alavanca do agronegócio brasileiro.”
Para os Dumoncel, o objetivo é intensificar a pecuária nas propriedades desses agricultores, incentivando o confinamento do gado e o uso do DDG como alimentação – o que libera mais área para o cultivo de grãos e amplia a venda de insumos e as operações de trade. O ciclo, então, se retroalimenta.
Para essa aposta na pecuária, a 3tentos lançou, em parceria com a Minerva, uma operação de barter com farelo de canola. A companhia vende o farelo ao pecuarista, que engorda o gado e paga a 3tentos em arrobas de boi, que por sua vez são compradas pelo Minerva.
Hoje atuando apenas no Rio Grande do Sul e Mato Grosso, a 3tentos agora se prepara para uma expansão rumo ao Norte. Em dezembro, anunciou a aquisição da Grão Pará Bioenergia, no Pará, um projeto com autorização para a construção de uma usina de etanol de milho com investimentos previstos em R$ 1,15 bilhão e inauguração prevista para 2027.
“O Pará, na nossa leitura, é a principal fronteira agrícola do Brasil nos próximos anos, com crescimento de 10% a 15% por ano,” disse João Marcelo. “E com a pecuária fortíssima lá, a integração das cadeias de grãos e de carnes tem enorme potencial.”
A 3tentos vai chegar ao Pará com o pacote completo: revenda de insumos, negociação de grãos e indústria. Este ano a companhia também começa operações de lojas e trading em Tocantins, Goiás e Minas Gerais. Com 73 lojas em operação, a companhia quer chegar a 100 até 2032.
Para a Faria Lima, é esse modelo de ecossistema que tem garantido o lugar da 3tentos como a top pick do agronegócio. A ação é um consenso no sellside, com indicação de compra e uma perspectiva de valorização de 20% a 30% nos próximos doze meses. O papel negocia a 9x lucro.
“O mercado gosta da 3tentos porque ela entregou o que prometeu no IPO, continua crescendo, e seus números são bem fortes, com um retorno sobre o capital investido muito alto,” disse Wagner Salaverry, gestor e sócio da Quantitas.
No fundo Quantitas Montecristo, a 3tentos está entre as cinco maiores alocações.
É verdade também que a companhia dos Dumoncel se destaca no mercado em um momento em que outras empresas do agro só entregam más notícias.
A Lavoro, uma das maiores distribuidoras de insumos agrícolas do Brasil, enfrenta uma recuperação extrajudicial de R$ 2,5 bilhões e acaba de pedir a deslistagem da Nasdaq.
Já a Agrogalaxy está em processo de recuperação judicial para reestruturar uma dívida de R$ 4,6 bilhões, fechou lojas e uma unidade sementeira de sua marca Campeã.






