Existe uma velha anedota sobre um grande empresário da comunicação do Brasil que certa vez teria aberto uma conversa com os filhos-herdeiros dizendo: “Se eu um dia eu vier a faltar…”
A certeza da imortalidade – que nesse exemplo não se confirmou – atinge um grau superlativo na figura de outro magnata da mídia. É o caso de Rupert Murdoch, nascido na Austrália, naturalizado norte-americano, e que, aos 95 anos, não parece dar indicativos de que, mesmo “aposentado” (como chegou a garantir meses atrás) renuncie a todo o poder que exerce – um poder que tem um impacto mundial há pelo menos cinco décadas.
Murdoch é o protagonista de Dinastia: A Família Murdoch, na Netflix, uma minissérie em quatro episódios que tem como tema central a sucessão idealizada, planejada e conduzida por ele.
No núcleo da trama está a News Corporation, a gigante multinacional que inicialmente focou em tabloides sensacionalistas mas obteve alcance planetário ao passar a comandar os jornais ingleses The Sun e The Times e os norte-americanos The Wall Street Journal e The New York Post.
Murdoch também inventou a Fox News, que se transformou na porta-voz do pensamento conservador, particularmente do Partido Republicano.
A minissérie revela como a realidade da sucessão no império de Murdoch frequentemente supera a ficção de Succession, a série que nasceu de um roteiro não produzido de Jesse Armstrong focado especificamente na família.
As semelhanças começam com os patriarcas: Logan Roy e Rupert Murdoch são ambos magnatas imigrantes que construíram conglomerados de mídia na América e enfrentaram múltiplos divórcios.
Os paralelos entre os herdeiros reais e fictícios são tão evidentes que os próprios Murdoch ficaram obcecados com a série, suspeitando de vazamentos internos.
Enquanto Lachlan Murdoch é frequentemente espelhado em Kendall Roy por sua trajetória de sucessor favorito, James Murdoch ressalta o perfil rebelde que eventualmente rompe com o império, e Elisabeth Murdoch ecoa a posição de Shiv Roy ao transitar entre os negócios da família e projetos independentes.
Dynasty: The Murdochs dá um tom documental e verdadeiro a esse relato, e mostra, através de milhares de páginas de documentos, e-mails e mensagens de texto, que o histórico da formação do poder de um império escancara uma disputa ainda mais violenta.
A série mostra em rápidos detalhes a ascensão de Rupert. No início, na Austrália, ele surge como herdeiro de um patrimônio que, mais tarde, soube alterar, solidificar e multiplicar. Desde cedo ele demonstra ser uma força da natureza, egoísta e egocêntrico, com apetite para qualquer tipo de negócio.
Assim, a partir das mudanças do eixo da família – primeiro para a Inglaterra e depois para os Estados Unidos – é possível penetrar nas tensões que se acumularam entre pai e filhos ao longo dos anos, muitas delas estimuladas pelo próprio patriarca.
São coadjuvantes de Rupert quatro filhos. A mais velha, Prudence, do primeiro casamento do magnata com Patricia Booker (com quem o empresário viveu entre 1956 e 1967), e o trio nascido a partir da união de Rupert com Anna Maria Torv (13 anos mais jovem e que foi casada com ele por 32 anos, a partir de 1967): Elisabeth, Lachlan e James.
O casamento com Anna Maria terminou depois de Rupert se apaixonar pela chinesa Wendy Deng, à época, em 1999, com 31 anos.
Wendy deu a Rupert duas filhas: Grace (2001) e Chloe (2003).
Tony Blair, padrinho de Grace, surge como o pivô da separação do casal. Em junho de 2013, Rupert entrou com um pedido de divórcio alegando diferenças irreconciliáveis. Depois disso, ainda se casou com Jerry Hall, a ex de Mick Jagger e 25 anos mais jovem, com quem ficou por seis anos (de 2016 a 2022) e, desde o ano retrasado, vive com Elena Zhukova, uma bióloga russa de 65 anos.
Mas mais do que todo esse emaranhado de personagens, o foco está nos negócios controlados por Murdoch. Com os três filhos que sempre foram apontados como possíveis sucessores – os três que teve com Anna Maria – o pai fez toda a sorte de testes, jogos, intrigas e pactos.
Para ilustrar a constante tensão em que vive a família, parte da ação é esquematizada numa animação digital em que seus personagens se movem num tabuleiro de Monopoly. A opção pelo jogo não é casual: o documentário conta que os Murdoch tinham por hábito jogá-lo em família e que, inclusive, Rupert certa vez foi flagrado roubando por uma cunhada.
No jogo entre os Murdoch são tantas idas e vindas, roubos e ganhos, que quem olha de fora muitas vezes se perde. O filho que parece despontar em determinado momento pode cair em desgraça no movimento seguinte. Ao jogar um filho contra o outro, ao estimular a competição e não deixar claro em nenhuma situação quem ele pretende encaminhar como sucessor, Rupert cria uma tensão permanente e passa a constante ideia de que não vê em nenhum deles a figura de um legítimo seguidor dos seus ensinamentos.
Dynasty: The Murdochs é também um resumo de boa parte da política e da economia global dos últimos 50 anos. Começa com o interesse de Murdoch pela ascensão de Ronald Reagan e vai até os escândalos das escutas telefônicas no News of the World, passando ainda por revelações de denúncias de assédio sexual na Fox News (com milionárias indenizações) e também pela relação de amor e ódio entre Murdoch e Donald Trump.
O projeto cresce, sim, com os depoimentos, em especial dos muitos jornalistas que acompanham o caso e seus desdobramentos há anos, como Jim Rutenberg e Jonathan Mahler, repórteres do The New York Times, e McKay Coppins, da revista Atlantic, autor de um perfil de James Murdoch publicado em abril do ano passado. Além deles, o documentário foi buscar ex-funcionários das empresas de Murdoch. E essa é uma das desvantagens da série para o público brasileiro: como esses profissionais não são conhecidos por aqui, fica difícil compreender as motivações (Vingança? Inveja? Revanche?) contidas em seus depoimentos.
Como é avisado ao final de cada episódio, nenhum membro da família Murdoch aceitou ser entrevistado para o documentário. Era o esperado, já que ninguém é poupado.
Com os capítulos indo num crescendo, as tensões e as intrigas explodem ao máximo a partir do acompanhamento da batalha judicial em Nevada sobre o fundo fiduciário que determinaria o controle do império midiático. É nesse momento que Murdoch pende para um lado, empodera o filho mais velho, Lachlan, e se alinha contra os outros três – as filhas de Wendy recebem sua parte em bilhões de dólares e parecem não estar interessadas na polêmica.
A conclusão é que a vontade do velho prevalece. Os dois lados acabaram chegando a um acordo bilionário em setembro passado. Prudence MacLeod, Elisabeth Murdoch e James Murdoch receberam valores da venda de ações e deixaram de ter participação nas empresas dos grupos News Corporation e Fox Corporation. Lachlan deverá permanecer no controle até pelo menos 2050.
Pelo que se vê no documentário, não há qualquer garantia que esse acordo será cumprido.












