O cachorro é o primeiro a morrer em Assim na Terra como embaixo da Terra. Corroído por uma úlcera em seus dias finais como mascote dos detentos de uma colônia penal, o pobre bicho “contemplava com tristeza e algum assombro sua carne definhar”.

Essa precária consciência da própria miséria faz do cão um herdeiro literário de Baleia, a cadela cuja morte é narrada em Vidas Secas. Mas ao contrário do animal que agoniza no sertão de Graciliano Ramos, o cão que definha na colônia penal criada por Ana Paula Maia sequer tem nome. 

Depois do cachorro, morrerão muitos homens. 

Lançado pela Record em 2017 mas publicado em inglês só no ano passado pela escocesa Charco Press, Assim na terra como embaixo da terra está entre os 13 semifinalistas do Booker International, o prestigioso prêmio britânico que todo ano escolhe o melhor romance estrangeiro traduzido no Reino Unido ou na Irlanda. (Compre aqui)

On Earth as It Is Beneath – assim o título foi vertido para o inglês pela tradutora canadense Padma Viswanathan – está na companhia de obras de autores reputados como o francês Mathias Énard e o alemão Daniel Kehlmann. É uma seleção pesada.

Aos 48 anos, com oito livros publicados, Ana Paula acumula distinções no Brasil (levou o prêmio São Paulo de Literatura para casa duas vezes, por Assim na Terra… e por Enterre seus Mortos) e no exterior (De Gados e Homens, traduzido como Of Cattle and Men, ganhou o Republic of Consciousness Prize, dedicado a livros de editoras independentes). Mas admite que levou alguns dias até perceber o alcance do Booker International.

Criado em 1969, o Booker consolidou-se como a mais importante distinção que um romance de autor britânico ou do Commonwealth pode receber. A partir de 2015, expandiu suas fronteiras: passou a premiar autores de língua inglesa de qualquer nacionalidade. No mesmo ano, o Booker International, criado em 2005 para homenagear escritores não-britânicos pelo conjunto da obra, foi reconfigurado nos moldes vigentes até hoje: distingue todo ano o melhor romance traduzido.  

Entrar na longlist do Booker International (a lista final, com seis romances, será anunciada no dia 31, e o vencedor será conhecido em maio) é um prêmio por si só.

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Ana Paula já sentiu o chamado Booker bounce – o impacto que a lista tem no mercado livreiro internacional. “Foi imediato,” a escritora disse ao Brazil Journal por telefone de Curitiba, onde mora com o marido e dois cachorros.

Carolina Orloff, a editora argentina radicada em Edimburgo que criou a Charco Press, telefonou para informar que uma nova tiragem de On Earth as It Is Beneath será impressa para atender a demanda. A brasileira relata ainda que está sendo procurada por editoras de outros países. 

No site do Booker International, o júri do prêmio foi feliz na definição das qualidades de Assim na Terra…: “Em prosa enxuta mas magistral, Ana Paula Maia constrói um mundo fechado repleto de horror, brutalidade e decadência moral.” No início do livro, o cão morto, consumido por moscas, representa bem esse universo bruto e degenerado.

Construída em uma área selvagem afastada de centros urbanos, a Colônia Penal está para ser fechada. Enlouquecido, Melquíades, o diretor da prisão, solta os internos em noites de lua cheia para caçá-los com uma espingarda. Ex-matador de aluguel, o detento Bronco Gil, protagonista da história, está determinado a escapar à sanha homicida do diretor.

Quando enterram as vítimas de Melquíades, os prisioneiros encontram restos de horrores mais antigos: esqueletos de escravos torturados e mortos no terreno em que a Colônia Penal foi erguida. “Quando comecei a pesquisar sobre o sistema carcerário, no Brasil e nas Américas, fui vendo que ele tinha relação com a escravidão,” disse Ana Paula. “Essas coisas começaram a se conectar organicamente com o projeto do livro.” 

The New York Times classificou On Earth as It Is Beneath como um livro de horror – e isso deixou a autora muito satisfeita. É o gênero em que ela se sente em casa.

A presença do sobrenatural é até relativamente discreta nesse livro em comparação com obras posteriores de Ana Paula (em De Cada Quinhentos uma Alma há possessões demoníacas, nuvens de gafanhotos e eventos apocalípticos). A estrutura, porém, é de um romance gótico: o cenário é um lugar isolado (a prisão aqui toma o lugar do castelo medieval ou da casa assombrada), onde as pessoas vão enlouquecendo sob influência de uma maldição ancestral.

Natural de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, Ana Paula foi alfabetizada pela mãe, professora, já aos cinco anos. Lia com avidez os livros da mãe. Na adolescência, foi baterista de uma banda punk, mas sua paixão maior era pelas artes narrativas – literatura e cinema (em paralelo à literatura, ela trabalha como roteirista para a Globo).

Um autor foi fundamental em sua formação: Edgar Allan Poe, o sinistro contista de O Gato Preto e A Queda da Casa de Usher. O nome de Edgar Wilson – personagem que, como Bronco Gil, atravessa vários livros de Ana Paula – é uma homenagem ao escritor americano, conjugando seu nome ao de William Wilson, o personagem-título de um de seus melhores contos.

Na literatura de Ana Paula, a tradição clássica do horror é transfigurada por uma violência visceral (aliás, há vísceras abundantes em seus livros, nos quais o matadouro – de porcos, bois ou búfalos – é um cenário recorrente). Esse mundo ficcional, diz ela, começou a se configurar a partir de seu terceiro livro, Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos, no qual Edgar Wilson faz sua estreia. “Foi então que eu entendi o que queria escrever,” recorda a autora.

A literatura que ela quer escrever – e o faz – foge ao que se espera de uma escritora brasileira contemporânea. Ana Paula é negra mas quase não trata de questões raciais. É mulher mas cria apenas protagonistas masculinos.

O mundo que ela criou é carregado de uma singular estranheza. A ação transcorre no Brasil, mas a narrativa não traz localizações geográficas específicas nem marcas claras do tempo histórico. Seus personagens são tipos brutos, mas estranhamente cativantes. “A ideia é trabalhar uma questão mais primitiva do homem, na sua essência,” diz a escritora.

Seu próximo romance, O Tenebroso Brilho do Sol, deve sair no segundo semestre pela Companhia das Letras, a editora que lançou seus três livros mais recentes. A história vai se passar em uma cidade devastada por uma enchente, no Rio Grande do Sul. Bronco Gil e Edgar Wilson não vão comparecer, mas a estranheza permanece: no centro da narrativa, está um ritual fúnebre em que os vivos vestem roupas que foram dos mortos.