Finalmente, chegamos ao tão sonhado 1%.
Pode parecer pouco, mas foram necessários 22 anos para que os ETFs atingissem R$ 100 bilhões em ativos sob gestão, o equivalente a apenas 1% da indústria de fundos brasileira, que hoje soma cerca de R$ 10 trilhões.
Tudo começou em 2004, com o lançamento do PIBB11, o primeiro ETF do Brasil, com apoio do BNDES. A oferta foi um sucesso e levantou R$ 600 milhões, impulsionada pelo downside protection oferecido pelo banco.
Apesar do início promissor, os anos seguintes ficaram aquém das expectativas.
Nos primeiros anos, houve a entrada de alguns players locais e internacionais, com destaque para a BlackRock e seu BOVA11, que passou a replicar o Ibovespa com enorme sucesso. Ainda assim, os primeiros dez anos foram lentos para a indústria, que até 2013 contava com apenas sete gestoras, 15 fundos, e aproximadamente R$ 2,8 bilhões de AUM, o equivalente a menos de 0,2% da indústria.
Além disso, os ETFs eram concentrados em ações locais e dominados por investidores institucionais.
Na década seguinte, até 2023 vimos uma evolução gradual: aumentou o número de gestores e produtos disponíveis, mas o avanço dos ativos sob gestão não chamou atenção, com um AUM de R$ 47 bilhões e 0,7% de participação.
Por outro lado, houve um avanço importante na diversificação das teses, com surgimento de ETFs de renda fixa, imobiliários, commodities, ouro e cripto. Aos poucos, o mercado deixou de ser um segmento de nicho, ganhou popularidade e sofisticação. Ao final de 2023, o setor já contava com 15 gestoras e cerca de 85 fundos.
Mas para ser exato, o verdadeiro ponto de inflexão veio nos últimos dois anos. Para citar Ernest Hemingway, “a mudança acontece lentamente, e então, de repente.”
Foram necessários 20 anos para o mercado de ETFs alcançar cerca de R$ 50 bilhões de AUM, e apenas dois para mais que dobrar, para R$ 108 bilhões. O número de fundos acompanhou o ritmo, chegando a 187 veículos.
Mas então, o que mudou?
Traçando um paralelo com os Estados Unidos, onde os ETFs ganharam tração após a crise de 2008, vemos uma relação direta com a migração para o modelo fee-based. Estruturas simples, líquidas, baratas e eficientes do ponto de vista fiscal impulsionaram a adoção.
Hoje, a indústria norte-americana administra US$ 13,5 trilhões em ETFs, o equivalente a aproximadamente 37% do mercado de fundos.
A boa notícia é que começamos a ver catalisadores semelhantes no Brasil.
É como se a última década tivesse preparado o terreno para essa expansão, com o modelo de assessoria ganhando representatividade frente ao modelo tradicional dominante, em que a agenda de investimentos era controlada por gerentes bancários generalistas.
Depois, um ciclo ainda mais propício se iniciou há três anos, quando passamos a observar o modelo de assessoria tradicional coexistindo com o fee-based, este último impulsionado também pelo aumento do mercado de consultores e gestores de patrimônio.
Este cenário se soma ao ambiente macro dos últimos anos, que trouxe desafios para gestores de fundos ativos, especialmente de ações e multimercados, que passaram a ter mais dificuldade em gerar alfa em relação aos benchmarks.
Esse cenário tem levado investidores a reavaliarem a relação custo x retorno.
O resultado? Abriu-se um importante espaço para o crescimento de soluções passivas.
Com estruturas simples, liquidas, diversificadas e de baixo custo, os ETFs finalmente romperam a barreira de 1% da indústria e, ao que tudo indica, não ficarão restritos a um nicho.
Um outro componente, se ajustado, pode destravar ainda mais esse crescimento: a equiparação tributária.
O raciocínio é simples. Se um ETF replica integralmente um FII, por que não ter o mesmo tratamento tributário sobre dividendos e ganho de capital?
Se ele distribui proventos de ações, por que não seguir as mesmas regras do mercado acionário?
Em um País onde a renda é protagonista, essa assimetria limita o alcance dos ETFs, principalmente entre investidores pessoa física.
A correção deste ponto pode acelerar significativamente o desenvolvimento do mercado de capitais brasileiro.
Quando estruturas simples, eficientes e alinhadas ao investidor ganham escala, o que está em jogo não é um produto, mas a evolução de toda a indústria. E caso os ajustes regulatórios e tributários aconteçam, o 1% poderá se transformar em uma indústria trilionária em poucos anos.
Gustavo Pires é sócio da XP Inc.






