O lançamento da primeira versão do ChatGPT se deu em novembro de 2022, e a AI agêntica tomou corpo em 2024-2025. Em muito pouco tempo a inteligência artificial invadiu os mercados, carreiras, processos de produção e estratégias empresariais – e estamos só no começo.
É difícil saber em que mundo estaremos vivendo já ao final desta década, que dirá em 20 ou 30 anos.
Há algum tempo vi o documentário The AI Doc na Netflix. O filme entrevista mais de 40 pessoas, dentre elas o CEO da Open AI, Sam Altman, e o da Anthropic, Dario Amodei.
As visões sobre o futuro variam de uma utopia de abundância de tempo livre e bens até distopias várias, incluindo ameaças à espécie humana.
Um aspecto que me chamou a atenção no documentário foi a ausência de economistas no debate. Também nas discussões no mês passado sobre a regulação dos modelos de AI nos EUA, o que se viu foram personagens conhecidos do Vale do Silício e a cúpula do governo. Também não vi economistas por ali.
O curioso é que a profissão, embalada pelos avanços em técnicas econométricas e maior disponibilidade de dados, tem sido bastante vocal acerca dos mais diversos temas nas últimas décadas – do controle da criminalidade a políticas climáticas.
Agora, quando se desenrola uma revolução tecnológica possivelmente única na história do capitalismo, com efeitos potenciais dos mais diversos sobre trabalho, propriedade privada, desigualdade, salários, organização industrial, governos, e assim por diante, a voz dos economistas parece um sussurro.
É claro que há pesquisa econômica sobre o assunto. O ganhador do Nobel Daron Acemoglu, por exemplo, vem tratando dos aspectos de substituição e de aumento de capacidades humanas da AI. Em fevereiro, publicou o artigo Building Pro-Worker Artificial Intelligence com David Autor e Simon Johnson.
Erik Brynjolfsson, o pesquisador de Stanford e especialista em tecnologia digital e produtividade, também possui contribuições relevantes sobre o tema. Em trabalho com Bharat Chandar e Ruyu Chen, atualizado em agosto, ele ainda não encontra evidências de destruição generalizada de empregos na economia, mas sim entre trabalhadores de 22 a 25 anos em profissões altamente expostas à AI.
O próprio NBER (National Bureau of Economic Research) possui uma agenda de pesquisa na área há quase uma década. A entidade acaba de publicar o volume The Economics of Transformative AI, que contém 16 estudos.
Ainda assim, parece haver uma lacuna entre o conhecimento acumulado dos economistas sobre a AI e suas vozes no debate prático.
A forma que a revolução da inteligência artificial virá a assumir será influenciada por temas econômicos tradicionais – por exemplo, como repartir os ganhos de produtividade, como equilibrar eficiência e poder de mercado, que incentivos podem favorecer uma AI que majoritariamente complemente o trabalho, como adequar o sistema tributário à nova realidade, etc. – com implicações profundas sobre o nosso modo de vida.
Mas a profissão ainda não “furou a bolha” de modo a assumir um maior protagonismo no debate público, empresarial e regulatório.
Delano Franco é economista e sócio da Patrimonial, uma gestora de recursos.





