MADRI — Na era do overtourism, poucas experiências têm sido mais desagradáveis do que visitar os grandes museus europeus.
O do Vaticano, por exemplo, lembra um curral apertado e labiríntico em que o rebanho tem que caminhar por horas em marcha lenta até atingir o êxtase na Capela Sistina; enquanto isso, no Van Gogh, é impossível apreciar Os Doze girassóis numa jarra sem precisar se desviar de dezenas de pessoas sendo fotografadas em poses pseudocontemplativas.
Nada bate, no entanto, o nível de insalubridade que atingiu o Louvre — principalmente a sala que abriga a Mona Lisa — mesmo após o museu estabelecer horários de entrada e limitar o número de visitantes diários.
Em meio a um mar de gente e celulares, uma equipe de seguranças vai enxotando as pessoas que estão imediatamente à frente da obra-prima de Leonardo da Vinci a cada 20 segundos.
A solução encontrada pelo Louvre foi construir uma sala e uma entrada exclusivas para aqueles que só querem tirar uma foto com a Mona, mas nem todos os museus estão dispostos a fazer essa concessão aos visitantes express.
Aqui em Madri, o Prado — o museu bicentenário que recebeu 3,5 milhões de visitantes em 2025 e bateu seu recorde de público pelo terceiro ano consecutivo — não quer receber mais gente.

“Não precisamos de mais visitantes. O que precisamos, talvez, é de um tipo de público diferente,” Miguel Falomir, o chefe do templo de arte madrilenho, disse na semana passada durante o evento de apresentação da programação deste ano.
“Um museu pode entrar em colapso devido ao próprio sucesso, como o Louvre, onde algumas galerias ficam constantemente superlotadas. Visitar o Prado não pode ser como pegar o metrô na hora do rush.”
Proporcionalmente, o Prado é mais cheio que o Louvre.
A pinacoteca parisiense tem quase três vezes mais visitantes (foram 9 milhões em 2025) que a espanhola, mas possui uma área pelo menos oito vezes maior.
No entanto, é muito mais agradável visitar o museu madrilenho atualmente, seja pelo horário estendido de funcionamento, pela amplitude das salas, que naturalmente dissipa o público, ou pela proibição de fotos nas galerias, vigente desde 2002.
Para manter a qualidade das visitas, Falomir disse que vai anunciar um plano nos próximos meses. A iniciativa englobará uma otimização dos 70.000 metros quadrados de espaço expositivo; uma redução no tamanho dos grupos de visitantes; uma redistribuição dos pontos de acesso ao museu; e estratégias para incentivar o público a explorar todo o acervo.
O grande desafio, segundo o executivo, é justamente fazer com que os visitantes se interessem pela coleção como um todo, e não só pelas obras mais icônicas.
As Meninas, de Velázquez, o Jardim das Delícias Terrenas, de Hieronymus Bosch, e O Cardeal, de Rafael, são alguns dos principais pontos de engarrafamento do Prado atualmente.
Já outras raridades, como As Idades e a Morte, do renascentista alemão Hans Baldung Grien, e as pinturas negras de Goya, com destaque para Saturno devorando um filho, passam mais despercebidas.
A direção deve ainda manter iniciativas como O Prado à Noite, em que o museu abre de forma gratuita das 20h30 às 23h no primeiro sábado de cada mês.
As entradas gratuitas, que também ficam disponíveis todos os dias nas duas últimas horas de funcionamento do museu, representaram 45% das visitas ao Prado no ano passado — e Falomir quer continuar apostando nisso.
Isso porque estas ações, normalmente disponibilizadas em parceria com grandes empresas, como a Samsung, atraem o público espanhol, hoje responsável por apenas uma de cada quatro visitas ao Prado.
Outra decisão para evitar a superlotação do museu é trocar as exposições temporárias centradas em grandes nomes por recortes temáticos menos óbvios, como Espanha e o gótico mediterrâneo (1320-1420), que ficará em cartaz entre maio e setembro.
É verdade que os grandes nomes atraem mais atenção, “mas nos sentimos muito privilegiados porque a maior parte da nossa receita vem das visitas à coleção permanente, e isso alivia a pressão. Não precisamos depender de exposições temporárias para gerar receita, e isso nos dá liberdade intelectual,” disse Falomir.
No século XXI, o número de visitantes do Prado subiu de 1,8 milhão em 2000 para 3,5 milhões em 2025; o espaço expositivo cresceu de 50.000 metros quadrados para 77.000; e 13.200 obras foram adquiridas.
Em 2028, o museu deve inaugurar um novo espaço chamado Salão dos Reinos, localizado num prédio separado do principal, a poucos metros do Parque do Retiro.











