No começo, a busca era pelo diferente, pelo que brilhava aos olhos — sem um direcionamento específico.

Ivani e Jorge Yunes, que fizeram fortuna no mercado editorial pedagógico, procuravam uma obra para adornar a sobre-lareira de sua casa no Pacaembu quando foram picados pelo bichinho do colecionismo.

Acabaram adquirindo mais de 30 mil artigos ao longo de cinco décadas e construindo uma coleção heterogênea que abrange um período de mais de 2.000 anos.

Depois veio o norte.

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As próximas gerações de Yunes — a filha Beatriz Yunes Guarita e a neta Camila Yunes Guarita — aceitaram o chamado artístico da família e o transformaram em trabalho, com uma visão mais clara sobre suas predileções enquanto colecionadoras e mais holística sobre o mercado em que atuam.

“É preciso conservar e preservar, entendendo a obra como um patrimônio e não apenas um investimento,” Camila, a fundadora da consultoria de arte KURA, disse ao Brazil Journal

Na média, a nova geração de colecionadores brasileiros ainda não virou essa esquina. É o que mostra o relatório Global Collecting Survey do UBS, Art Basel e Arts Economics, que entrevistou 3.100 colecionadores de 10 países sobre suas atividades de colecionismo durante 2024 e o primeiro semestre de 2025.

Os participantes do Brasil são mais jovens (em média 34 anos), só não gastam mais do que os chineses e possuem coleções maiores (em média 56 obras) do que as dos seus pares internacionais, mas ainda concentram suas compras em mídias tradicionais como pinturas e esculturas (62% da coleção) de artistas homens (60%) consagrados (53%).

A criação da identidade de um colecionador não é um processo linear.

“Eu nasci nesse meio, a arte sempre foi o cenário da minha vida. Mas, embora parecesse um caminho óbvio, eu fui a única dos netos [de Ivani e Jorge] a se interessar profundamente pelo tema e a fazer disso um trabalho,” disse Camila.

Ainda jovem, começou a acompanhar a mãe em feiras de arte, o que se tornou um hobby. Depois, aos 18, foi trabalhar na Galeria Nara Roesler e descobriu um mundo novo ao testemunhar a valsa entre o artista e o comprador. 

Começou sua coleção com o primeiro salário que ganhou — nos seus próprios termos.

“Herdei do meu avô, por exemplo, o gosto pela figuração, algo que minha mãe não compartilha tanto. Ela tem um olhar muito contemporâneo, se interessando até por peças imatéricas, enquanto o meu foi moldado pela forma, pela geometria sensível, pela poesia e pelas palavras,” afirma.

Além de cultivar preferências pessoais, Camila diz que há uma evolução do papel do colecionador, que hoje precisa emprestar obras, ser patrono de museus e estar por dentro da dinâmica institucional do setor.

Por enquanto, os brasileiros são os que menos possuem planos formais de doação a museus (21%), preferindo manter as obras como legado familiar (80%) — mas estão se propondo a entender mais o mercado.

“Colecionar é cada vez mais uma construção, e as pessoas têm procurado art advisors em busca de informação e de um direcionamento mais claro para os seus acervos,” disse.

Nessa linha, os brasileiros são os que mais querem aumentar sua participação em eventos artísticos (69%); e os que mais planejam comprar obras em 2026 (72%).

Para além das artes, o País também lidera as intenções de compra em várias outras categorias, como relógios e bolsas; carros clássicos, iates e jatos – até tênis colecionáveis.

Na hora de fechar negócio, no entanto, ainda somos o País menos engajado em compras via Instagram (8% dos participantes), o meio que revolucionou o mercado na pandemia. Por ora, preferimos adquirir obras em leilões (28%) e com art dealers (22%), e também gostamos de visitar e comprar diretamente com os artistas (20%). 

Segundo Camila, os colecionadores do País estão comprando e dando mais visibilidade à arte nacional, o que ajuda no seu processo de consolidação internacional, e também frequentam cada vez mais as feiras internacionais.

“O imposto é que tem sido um problema. Entre 2010 e 2024 tínhamos isenção de ICMS e as galerias internacionais vinham para cá, mas hoje perdemos esse fluxo,” afirma, notando uma redução nas importações de obras de arte.

Em linha com o matriarcado das Yunes, a pesquisa também faz um recorte de gênero: segundo o UBS, mais de US$ 83 trilhões passarão entre gerações nas próximas décadas, e as mulheres, que já controlam mais de um terço da riqueza global, devem concentrar ainda mais recursos no futuro.

Globalmente, elas gastaram 46% a mais que os homens com arte nos últimos 18 meses, e compraram mais obras de mulheres (47%) e de artistas recém-descobertos (69%).

No Brasil, enquanto os homens se interessaram mais por tênis e relógios, as mulheres sustentaram a demanda por pintura e escultura.

Os mercados analisados na pesquisa foram EUA, Reino Unido, França, Alemanha, Suíça, China, Hong Kong, Singapura, Japão e Brasil.