O casal Alexander Appel e Giovanna Meneghel estava num café em Berlim quando decidiram pedir um café com leite. 

A reação do barista foi um misto de espanto e desdém. O ‘grande pecado’: Alexander havia pedido um café com leite de vaca — o que, para o alemão, era uma coisa do século passado.

Depois de um extenso sermão, o barista sugeriu que eles provassem um leite de aveia da Oatly, a gigante de produtos veganos que fez seu IPO há alguns meses.

O episódio — que aconteceu em 2017 — mostrou uma oportunidade ao casal, que dois anos depois lançou seu próprio leite de aveia, o Nude.

A marca já está presente em mil pontos de venda no Brasil (400 cafés e 600 varejistas) e faturou mais de R$ 1 milhão mês passado. 

Para crescer mais, a startup acaba de levantar R$ 25 milhões numa rodada que avaliou a empresa em R$ 125 milhões (post money). O investimento foi liderado pela gestora de impacto Vox Capital e vai ser usado para escalar a marca e ampliar o portfólio.

A rodada Série A também teve a participação da Lever VC, a gestora de Singapura que foi uma das primeiras investidoras da Impossible Foods e Beyond Meats, além da Endeavor Scale-up Ventures, Ecoa Capital e a Angel Ventures, uma gestora mexicana. 

A Nude une a experiência de mais de sete anos de Alexander com private equity (Pátria), e da família de Giovanna com a produção de aveia. No Paraná, os Meneghel são donos da SL Alimentos, um moinho de beneficiamento do cereal.

A primeira linha de produção da Nude foi construída justamente dentro da planta da SL Alimentos.

A Nude está entrando num mercado concorrido: já há mais de 70 produtos diferentes de leites vegetais no Brasil.

Mas os fundadores dizem que a maioria dos leites vegetais hoje são feitos com soja, amêndoa e castanha, e que há poucas opções de leite de aveia no mercado.

“Quando falamos de alimento estamos falando de sabor, e a aveia tem um dulçor leve, uma cremosidade que aproxima o leite de aveia do leite de vaca e harmoniza muito bem com o café,” Giovanna disse ao Brazil Journal. “É bem diferente do leite de amêndoa ou castanha, que deixa um sabor residual quando você mistura com o café.”

A fabricação do leite é relativamente simples. A Nude mistura a aveia com água e um mix de enzimas. Segundo a empresa, esse mix de enzima foi desenvolvido durante um ano de estudos, e é o seu grande segredo industrial.

“É o mix de enzimas que vai definir se o leite vai liberar mais fibra, mais proteína, mais açúcar, ou se vai ficar mais cremoso e ter mais corpo,” disse Giovanna. 

A Nude tem um portfólio ainda restrito: são cinco versões do leite de aveia, um chocolate vegano em parceria com a Dengo e um sorvete vegano de chocolate com a Bacio di Latte. 

Com a rodada, o plano é começar a ampliar o portfólio: em fevereiro, a startup planeja lançar um creme de leite feito de aveia, abrindo o canal de foodservice. “Queremos ser uma empresa de produtos à base de aveia, e não apenas de leite,” disse Alexander. 

Ainda assim, o fundador lembra que o mercado de leites vegetais sozinho ainda tem muito espaço para crescer no Brasil. 

Apesar de já ter 70 produtos diferentes, os leites vegetais representam apenas 1,5% do mercado brasileiro de leites, contra 15% nos Estados Unidos. 

A Nude está posicionando seus produtos com um preço marginalmente superior ao dos maiores concorrentes. Enquanto os leites vegetais da Nestlé e Silk saem por em torno de R$ 15 o litro, o da Nude custa em média R$ 18. 

“Mas esses produtos têm estabilizantes, gomas, e usam menos a matéria-prima vegetal, o que reduz o preço,” disse Giovanna.