Michael Moritz, um dos sócios da Sequoia Capital, acha que os investidores não deveriam confiar no julgamento das empresas de ‘proxy advisory’ – cujo trabalho é justamente recomendar aos investidores como votar nas assembleias de acionistas.

Num artigo publicado hoje no Financial Times, Moritz não usou meias palavras para criticar a Institutional Shareholder Services (ISS) – a maior delas. 

“As opiniões da ISS são tão confiáveis quanto as da Moody’s, Standard & Poor’s e Fitch logo antes da crise do subprime em 2008,” escreveu o investidor.

A comparação é o equivalente a chamar a ISS de incompetente e falsária, dado que as agências de classificação de risco foram responsáveis por dar ratings ‘triple-A’ para ativos de crédito que eram basicamente lixo.

A revolta de Moritz com a ISS foi desencadeada pelo tratamento dado pela empresa ao pacote de remuneração do CEO da Apple, Tim Cook. 

No mês passado, a ISS recomendou aos acionistas da Apple que votassem contra um pacote de US$ 99 milhões (incluindo bônus) para Cook referente ao ano de 2021. 

“Imagine que você comprou um apartamento de US$ 360 mil em 2011 e que ele hoje vale US$ 2,4 milhões – graças, em grande parte, à maneira como o administrador do prédio melhorou o telhado, o exterior e o elevador, ao mesmo tempo em que instalou uma linda academia e uma piscina,” escreveu o investidor. “Quanto daqueles US$ 2,4 milhões você estaria disposto a compartilhar com o administrador? Se você fosse o conselho da Apple, você diria: US$ 4.800.”

Segundo Moritz, esta proporção irrisória (US$ 4.800 sobre US$ 2,4 milhões) está refletida nos US$ 4,8 bilhões em ações que Tim Cook recebeu da Apple desde que assumiu o comando da empresa em 2011, quando a companhia valia US$ 360 bilhões. 

Hoje, a Apple vale US$ 2,4 TRI-lhões – um retorno de mais de 1.000% para os acionistas no período. 

E é aí que entra a ISS…

Ainda que a compensação de Tim Cook (recomendada pelo board) tenha sido nada menos que muquirana à luz de todo o valor que ele gerou, “isso não foi suficiente para convencer a ISS, que no mês passado contestou o tamanho e a estrutura da remuneração de Cook,” escreveu Moritz. 

A influência da ISS ficou clara no resultado da votação: ainda que a proposta do conselho tenha sido aprovada, 36% dos acionistas votaram contra.

Para Moritz, o caso Tim Cook mostra como o controle e a influência de empresas de proxy como a ISS e a Glass Lewis cresceram, segundo Moritz, “porque elas operam por trás dos panos para se tornar o juiz e o júri das ações da América corporativa.” 

Para se ter uma ideia, a ISS diz que cobre 45.000 assembleias de acionistas em diferentes países do mundo. 

“Não consigo imaginar como a equipe de analistas da ISS tem tempo para dominar as sutilezas das inúmeras empresas sob sua alçada. Eu mal consigo lidar com oito ou nove,” ironizou o investidor. 

Para ele, a influência das empresas de proxy advisory cresceu por alguns motivos.

O primeiro deles é a explosão dos fundos passivos. Boa parte dos gestores de ETFs não acompanha de perto as empresas do portfólio e acaba sendo obrigada a votar de acordo com a recomendação dessas empresas.

O segundo motivo é a preguiça do investidor. “É simplesmente mais fácil delegar essas decisões para um terceiro,” escreveu Moritz. 

Finalmente, diz ele, existe a covardia, já que “é mais simples seguir humildemente a ISS do que se levantar e se fazer ser ouvido.”

A solução para esse cenário? 

Para Moritz, as companhias “deveriam recrutar diretores dispostos a ignorar a intimidação e que estruturem pacotes de remuneração que recompensem os executivos generosamente por performances espetaculares.”

Já “os diretores financeiros deveriam procurar investidores que não assinem os serviços de voto por procuração e, em vez disso, confiam em sua própria análise. Investidores e gestores de fundos devem jogar fora suas muletas e ficar de pé sozinhos.”