Pouco mais de um ano depois de o fundador Jack Ma arrumar confusão com o governo chinês (ou vice versa), a ação do Alibaba está negociando perto das mínimas – e chamando a atenção de investidores. 

Charlie Munger aumentou em 80% sua posição comprada no gigante do ecommerce chinês, animado com os resultados do terceiro trimestre, o último reportado. Munger começou a investir em abril passado e já tem quase 0,2% da empresa. 

Desde meados do ano passado, gestores como o Tiger Global montaram veículos específicos para fazer bargain hunting na China – e estão perdendo dinheiro por enquanto. 

A ação negocia a 15 vezes o lucro, contra uma média histórica de 24,2x.

E usando o método de soma das partes, que avalia cada negócio por seu múltiplo apropriado, a margem de segurança aumenta.

O core business de comércio eletrônico — o TMall, o marketplace B2C, e o Taobao, que é consumer-to-consumer — negocia na faixa de 5-6x lucro.

O business de cloud é avaliado entre 8x e 12x receita 2022 (ou de US$ 120 bilhões a US$ 180 bilhões).

O stake de 33% que a empresa tem na Ant Financial deveria valer pelo menos US$ 17 bilhões, considerando um enterprise value de US$ 50 bi. 

[Um relatório da Alliance Bernstein avaliou a Ant em US$ 120 bi seis meses atrás, e a companhia tentou fazer seu IPO a um valuation de US$ 315 bilhões — antes da bolha estourar e de Ma brigar com o Partido, precipitando a debacle nas China Tech.] 

Finalmente, os negócios de ‘new retail’ — lojas físicas com muita tecnologia embarcada — valem conservadoramente 1x venda (US$ 52 bilhões); eles têm margem baixa mas crescem receita perto de 100% ao ano.

Isso sem falar nos negócios de entretenimento, atacado e comércio internacional.

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Mas para investir no Alibaba não basta olhar os números: é preciso acreditar que a empresa vai vencer os desafios da intervenção governamental. 

“A aposta aqui é que o governo será racional e com o tempo vai apoiar as empresas chinesas que reinvestem,” diz um gestor. “A luta é antimonopólio de um lado, mas mais especificamente contra negócios que gamificam o usuário. Também há uma luta relevante contra negócios que possam causar ‘feedback loops’ sociais negativos como o endividamento da classe média, o que acabou sendo a sentença de morte das edtech.”

Pouco antes do Natal, o governo da China suspendeu uma parceria de compartilhamento de informações que mantinha com a Alibaba Cloud, o braço de infrastructure as a service, que é responsável por parte relevante da receita do grupo. 

Por conta da tensão com os EUA, desde o Governo Trump há especulação de que o governo chinês vai obrigar as empresas do país a deixar as bolsas americanas.

Esses são só mais alguns episódios do pesadelo em que se transformou a vida da empresa desde que Ma, em outubro de 2020, atacou o sistema regulatório da China, dizendo que ele era rígido demais e atrapalhava a inovação.

Depois das declarações, além do IPO da Ant ser cancelado, Ma desapareceu por três meses e, durante o ano passado, o governo chinês endureceu ainda mais a regulação. 

Em outubro de 2020, a ação do Alibaba estava na máxima, perto de US$ 310 e, desde então, acumula desvalorização de 59% para US$ 128 – a mínima foi US$ 112. 

O Alibaba hoje vale US$ 348 bilhões na NYSE. 

Entre as medidas do governo chinês – que tiram poder das empresas sob a justificativa de agir em prol da sociedade – estão mais regulação do uso de dados, de algoritmos e de outros meios utilizados para redirecionar o tráfego da internet. O governo agiu para banir acordos de exclusividade entre comerciantes e plataformas.

“O mercado de ecommerce ficou muito mais competitivo após o governo chinês proibir a política choose one from two, na qual o Alibaba pedia exclusividade para vários sellers,” diz Leonardo Otero, sócio da Arbor Capital, que investe em ações globais e foca muito na Ásia. 

Segundo ele, com o fim da exclusividade, o ritmo de crescimento do Alibaba se reduziu e as margens colapsaram. “As medidas estão afetando todas as empresas. Mas, além de ter virado um alvo maior do Partido chinês, elas fizeram com que o Alibaba sofresse muito mais no front competitivo”, diz Leonardo.

Para ele, o cenário ainda é muito incerto, ainda mais para uma empresa que brigou com o governo. 

“Na China, hoje, só temos ações da JD, um ecommerce bem menor que foca em logística e é alinhado com o governo. Isso é muito importante lá,” diz. 

Para outro gestor, antes das declarações de Ma, o mercado não tinha a visão de que o governo interferia tanto no dia a dia das empresas chinesas e pagava um múltiplo gigantesco pelo qualitativo. Para ele, hoje o papel está barato apenas para quem achar que não haverá mais interferência do governo. “É um risco muito difícil de pagar e de quantificar”, diz o gestor. 

No início de dezembro, o Alibaba fez um Investor Day e anunciou planos alinhados com a cabeça do regulador, como aumentar a segmentação de seu negócio, com mais esforços e investimentos para atender aos 600 milhões de consumidores que estão em cidades do interior. A empresa também disse que até 2030 será carbono neutro. 

Uma das avenidas de crescimento apontadas pela empresa é justamente a Alibaba Cloud  – o governo da China desfez a parceria com a empresa alegando não ter sido informado imediatamente sobre as vulnerabilidades do seu software.

O governo disse que não considera retomar a parceria por pelo menos seis meses, e que a retomada vai depender de reformas na empresa. (O Alibaba Cloud é o equivalente ao Amazon Web Services, a empresa de armazenamento e infraestrutura na nuvem que já responde por metade do resultado da Amazon. O serviço do Alibaba é o maior da China, onde tem 30% de market share. Mas o negócio ainda dá prejuízo e responde hoje por 8,5% da receita do Alibaba.)