No aniversário de 250 anos de A Riqueza das Nações (1776), de Adam Smith, proponho ao leitor que celebre também sua outra grande obra, aquela que o próprio Smith considerava sua maior contribuição ao pensamento humano: A Teoria dos Sentimentos Morais (1759).

Foi esse livro que projetou Smith em toda a Europa e o transformou em uma celebridade intelectual quase vinte anos antes de A Riqueza das Nações. A partir de então, passou a circular entre os círculos mais influentes do continente.

A empatia: o fundamento da moralidade

Smith propõe que a moralidade não nasce de mandamentos externos nem de uma razão abstrata e fria, mas de algo profundamente humano e natural: a empatia.

Por empatia, ele não entende compaixão ou pena, mas a capacidade de imaginar e sentir, ainda que de forma atenuada, o que outra pessoa sente. Se vejo alguém tropeçar, me contraio. Se vejo alguém alegre, partilho algo de sua alegria. Essa faculdade cria um tecido invisível de conexões que limita o nosso egoísmo bruto e torna possível a vida em sociedade.

O terremoto na China: os limites da simpatia

Smith, no entanto, sabia que a empatia tem limites claros. Para mostrar isso, criou uma parábola que se tornaria famosa.

Imagine um europeu que lê no jornal a notícia de um terremoto devastador na China, matando milhões de pessoas. Ele se entristece, comenta o fato, talvez reflita por alguns minutos sobre a fragilidade da vida — mas depois janta, conversa e dorme tranquilamente.

Agora imagine que esse mesmo homem descobre que, no dia seguinte, perderá o mindinho da mão! A ansiedade o consumiria. Ele não dormiria. Pensaria obsessivamente no próprio sofrimento.

O contraste é perturbador: um dedo pesa mais, em nossa experiência imediata, do que milhões de vidas distantes. Essa é a natureza do egoísmo humano.

Mas Smith não para aí. Ele propõe um teste decisivo: e se fosse preciso escolher entre salvar milhões de pessoas na China ou sacrificar o próprio mindinho? O que faríamos?

Smith é categórico: qualquer pessoa minimamente moral escolheria perder o dedo.

Por quê?

O espectador imparcial: uma inovação filosófica

É aqui que entra o conceito mais original de Smith: o espectador imparcial.

Smith argumenta que todos nós carregamos dentro de nós um juiz interno, formado lentamente ao longo da convivência social.

Esse aprendizado começa muito cedo. Uma criança percebe que certos comportamentos despertam sorrisos, elogios e acolhimento, enquanto outros provocam reprovação, constrangimento ou silêncio. Ela observa como adultos reagem às atitudes alheias, compara julgamentos, percebe padrões. Aos poucos, aprende a antecipar essas reações: antes mesmo de agir, já imagina como será vista. 

Com o tempo, esse olhar externo deixa de depender da presença real dos outros. Ele é interiorizado. Nós passamos a nos observar “de fora”. 

Ser amado — e ser digno de amor

Aqui chegamos, a meu ver, ao ponto central da teoria de Smith. Vale ler essa parte do texto com lentidão e calma: para ele, os seres humanos não desejam apenas ser amados, elogiados ou admirados. Desejam, sobretudo, ser dignos desse amor e dessa admiração.

O aplauso vazio não basta. A aprovação que realmente nos satisfaz é aquela que resiste ao exame do espectador imparcial, que não nos deixa enganar por encenações nem por justificativas convenientes. É por isso que alguém pode ser celebrado publicamente e, ainda assim, sentir vergonha; e por que alguém pode agir corretamente em silêncio e experimentar uma paz interior profunda e duradoura.

Em Smith, esse deslocamento é decisivo. Não basta parecer bom; é preciso sê-lo. Não basta ser amado; é preciso merecer esse amor.

É nessa coerência entre aprovação aparente e aprovação legítima que Smith localiza uma das fontes mais sólidas da tranquilidade da mente e, com ela, da possibilidade de uma vida verdadeiramente boa.

As virtudes de uma vida que vale a pena ser vivida

A partir dessa “coerência moral”, ele avança e oferece algo ainda mais ambicioso: uma definição do que seja uma vida verdadeiramente plena. Para Smith, viver bem não é viver no luxo, na excitação permanente ou na busca incessante por reconhecimento externo. É viver com tranquilidade da mente — uma serenidade estável e duradoura, marcada pela ausência de remorso e pela sensação de sermos dignos de nós mesmos, que nasce quando o nosso espectador imparcial aprova a maneira como conduzimos a própria vida.

Essa tranquilidade não é fruto do acaso. Ela é construída. Resulta da prática consistente de três virtudes centrais, que estruturam toda a moral smithiana: prudência, justiça e benevolência.

Prudência: governar a própria vida

A prudência é a virtude do autocuidado racional. Para Smith, ela envolve atenção à saúde, ao caráter, à reputação e às escolhas que fazemos ao longo do tempo. O prudente não é o hedonista impulsivo, nem o asceta que despreza a própria vida; é aquele que sabe pesar consequências, adiar gratificações e preservar sua integridade física, moral e social.

Justiça: o alicerce da vida em comum

Se a prudência governa a relação do indivíduo consigo mesmo, a justiça governa sua relação com os outros. Para Smith, a justiça é a virtude mínima e indispensável da vida social. Ela exige apenas que não prejudiquemos deliberadamente o outro.

Roubar, enganar, humilhar, explorar — esses atos violam a justiça e corroem o tecido social. É por isso que Smith afirma que a justiça pode ser legitimamente imposta e punida: sem ela, a sociedade simplesmente não se sustenta.

Benevolência: o que dá sentido à vida moral

Mas Smith é claro: uma sociedade pode sobreviver apenas com prudência e justiça — porém será fria, árida e moralmente pobre. É a benevolência que dá calor humano, significado e elevação à vida em comum.

Ela nasce de um movimento voluntário: desejar ativamente o bem do outro, mesmo quando não há ganho direto envolvido.

Para Smith, é nesse ponto que a vida moral atinge seu grau mais alto: quando o indivíduo, sem negar o amor-próprio, é capaz de transcender o próprio interesse imediato e agir em favor dos outros, do coletivo.

A falsa contradição de Adam Smith

O leitor pode se perguntar: como compatibilizar esse Adam Smith atento à empatia, à consciência moral e à dignidade humana com o autor da famosa “mão invisível”? Como conciliar o filósofo moral com o economista que parece confiar tanto no interesse próprio?

Essa tensão ficou conhecida como o chamado “problema Adam Smith”, um debate surgido no final do século XIX, que viam uma contradição entre A Teoria dos Sentimentos Morais e A Riqueza das Nações. Hoje, porém, não há grande mistério entre os estudiosos do tema. 

A chave é simples: a teoria econômica é construída a partir da base moral. O famoso trecho da “mão invisível”, tantas vezes citado fora de contexto, não é uma celebração do egoísmo desenfreado. Ele aparece inserido em um quadro moral específico: o indivíduo, ao perseguir seu próprio interesse, pode ser levado — como que por uma mão invisível — a promover o bem comum. Mas isso só funciona dentro de um ambiente de justiça, normas compartilhadas e instituições morais estáveis. Smith jamais imaginou mercados funcionando no vácuo moral.

Em outras palavras, A Riqueza das Nações só faz sentido porque A Teoria dos Sentimentos Morais veio antes. Lidas em conjunto, as duas obras revelam a coerência de um mesmo projeto intelectual. Aliás, quanto mais conheço a vida pessoal de Adam Smith, mais me encanto com a figura íntegra, generosa e coerente que ele foi.

É claro que as ideias morais e econômicas de Smith foram amplamente revisitadas, criticadas e reformuladas ao longo dos últimos séculos, à medida que a economia e a própria sociedade evoluíram. Ainda assim, seu legado permanece inquestionável — não apenas como economista, mas como um pensador profundamente atento às condições morais de uma vida que vale a pensa ser vivida.

Vida longa a Smith!