SAN JOSE, Califórnia – Depois de dois dias intensos na NVIDIA GTC – o maior evento de Inteligência Artificial do mundo – pude finalmente sentar na minha mesa no escritório da São Pedro Capital em São Francisco para digerir a avalanche de novidades.

Para nós, investidores fundamentalistas de longo prazo, é essencial a paz de espírito para separar a hype do pragmatismo.

Em primeiro lugar, é incrível a evolução da GTC em tão pouco tempo. Há meros dois anos, o evento se restringia ao (grande) centro de convenções de San Jose, onde se transitava com relativa facilidade.

Agora, nem a expansão para uma área quase 50% maior impede filas intermináveis para os painéis e a dificuldade até para comprar um lanche. 

Mas os pontos mais interessantes não vieram dos enormes salões cheios de robôs, ou das mais de 1.000 sessões, muitas delas transmitidas virtualmente –  e sim das reuniões e eventos mais exclusivos, alguns deles onde puderam participar apenas analistas e investidores com um relacionamento mais próximo com a companhia.

Entre um caviar e um foie gras – e uma foto com o CEO Jensen Huang – ficou notório o semblante tranquilo, o olhar confiante e a entonação otimista não só de Jensen, mas também da CFO Colette Kress e de outros executivos como Jeff Fisher, o SVP da GeForce (a divisão de gaming da Nvidia).

Esse ambiente benigno era o oposto da GTC do ano passado, quando a “disrupção do DeepSeek” e os “iminentes atrasos da Blackwell” traziam um ar pesado e mau humor mesmo quando regado a taças de champanhe.

Se o body language este ano foi construtivo, o mesmo pode ser dito do hard data.

Com lançamentos em diversas direções – de CPUs dedicadas a AI às LPUs que trazem mais eficiência a tarefas complexas – a Nvidia mostrou mais uma vez uma virtude que admiramos há anos: uma incrível capacidade de inovação enraizada numa obsessão em resolver os maiores e mais complexos problemas de engenharia de computação/hardware.

Num novo mundo em que a geração de tokens será cada vez mais essencial para a economia, é fundamental ter os melhores sistemas (máquinas e software), aqueles que não só geram o menor custo, mas também consomem o mínimo de energia.

E nisso, a Nvidia deixou ainda mais para trás qualquer outro competidor. Isso fica evidente em seu backlog de mais de US$ 1 trilhão entre 2025 e 2027 – nas nossas contas chegando em até US$ 1,5 trilhão se incluirmos novos produtos como Rubin Ultra, LPUs e CPUs.

Por fim, em sua função de carregar a bandeira da inovação, a Nvidia colocou mais holofotes ainda no OpenClaw, a incrível ferramenta de criação de soluções agênticas como automação de tarefas, envio de e-mails e criação de verdadeiros assistentes pessoais.

Ao endereçar algumas questões de cibersegurança com o NemoClaw – uma versão que roda dentro da “governança Nvidia” – mais e mais pessoas devem testar o produto, trazendo ainda mais utilidade e awareness para a AI.

Com tudo isso, é difícil sair da GTC sem ficar construtivo com as ações da Nvidia, ainda mais com o papel negociando agora a meros 13x o lucro de 2027, o menor múltiplo em quatro anos – quando a Nvidia passou por uma digestão complexa do trabalho remoto e problemas na distribuição para China.

O número chama ainda mais atenção depois do anúncio da distribuição de 50% do fluxo de caixa livre (FCF) para investidores (entre dividendos e recompra). 

Em resumo, seja por crescimento ou por valor, há muitas razões para um investidor se animar.

Thiago Kapulskis é sócio do Global Tech Fund da São Pedro Capital.