Poucos instrumentos financeiros contribuíram tanto para a formação de patrimônio dos brasileiros quanto os investimentos atrelados ao CDI.
Durante décadas, eles ofereceram uma combinação rara de liquidez, baixo risco e juros reais positivos, consequência de uma das maiores taxas nominais de juros do mundo.
Em uma economia marcada por inflação elevada, crises fiscais e instabilidade cambial, esse foi o remédio certo. Protegeu a poupança dos brasileiros quando o país mais precisava.
O problema é que remédios também têm efeitos colaterais. Quando utilizados por tempo demais, alguns deixam de tratar a doença e passam a criar dependência. Em casos extremos, tornam-se parte do próprio problema.
E isso aconteceu com o CDI.
O que antes era um mecanismo de proteção transformou-se no principal custo de oportunidade do capital brasileiro. Hoje, praticamente toda decisão de investimento começa com a mesma pergunta: vale a pena abrir mão do CDI?
Quando a resposta é negativa, deixa-se de financiar empresas, infraestrutura, inovação, ações e projetos de longo prazo.
O investidor age racionalmente, mas o resultado agregado é uma economia que investe menos, cresce menos e permanece excessivamente dependente de juros elevados.
Essa lógica também contamina o financiamento do Estado. Quanto maior a preferência do investidor por títulos pós-fixados, maior a dificuldade do Tesouro em emitir dívida prefixada ou indexada à inflação de longo prazo.
Em diferentes momentos, mais de 40% da dívida pública brasileira esteve indexada à Selic. Em um cenário de expansão contínua dos gastos públicos e de crescente risco de dominância fiscal, o problema se agrava: cada alta da Selic aumenta imediatamente o custo da dívida pública, piora a percepção de risco fiscal e reforça a demanda por títulos pós-fixados.
O remédio passa a alimentar a própria doença. O que antes era consequência da fragilidade fiscal tornou-se um dos fatores que ajudam a perpetuá-la.
Mas talvez essa nem seja a principal consequência. Existe um efeito mais silencioso – e possivelmente mais perigoso.
Durante décadas, o brasileiro acostumou-se a acreditar que preservar patrimônio significava investir em CDI.
Essa estratégia funcionou enquanto a referência era apenas a moeda brasileira e enquanto o País colhia os frutos das reformas iniciadas com o Plano Real e aprofundadas nas décadas seguintes.
Entretanto, patrimônio não compra apenas bens no Brasil. É importante que compre poder de compra globalmente. E é justamente aí que reside a maior vulnerabilidade.
O Brasil continua sendo um dos países com maior concentração de patrimônio financeiro na própria moeda.
Enquanto o CDI sobe diariamente, essa concentração transmite uma sensação de segurança.
Mas basta uma deterioração relevante da confiança fiscal para que uma forte desvalorização cambial destrua, em poucos meses, parte importante do poder de compra acumulado durante anos de juros elevados.
Em um cenário mais extremo, uma espiral inflacionária decorrente da perda de credibilidade fiscal pode corroer até mesmo o patrimônio protegido por ativos indexados ao CDI.
Em outras palavras, é possível ganhar dinheiro em CDI durante uma década e perder riqueza real em poucos meses.
A história mostra que esse risco está longe de ser teórico. A maxidesvalorização do real em 1999, o ataque especulativo à libra esterlina em 1992, as sucessivas crises cambiais da Turquia, os recorrentes colapsos da Argentina e, em sua forma mais extrema, a destruição da moeda venezuelana demonstram que nenhum investidor deve confundir rentabilidade nominal com preservação de riqueza.
Na Argentina, por exemplo, um investidor que terminou 2001 com o equivalente a US$ 1 milhão em pesos e manteve seus recursos aplicados à taxa básica de juros local teria encerrado 2002 com aproximadamente 1,39 milhão de pesos.
No entanto, após a desvalorização cambial, esse patrimônio representaria apenas cerca de US$ 415 mil — uma perda de aproximadamente 59% do poder de compra internacional em apenas um ano, apesar dos juros recebidos.
Levando o mesmo exercício até 2026, o patrimônio equivaleria a aproximadamente US$ 282 mil (isso sem considerar que os recursos originalmente em dólares poderiam ter permanecido investidos em ativos denominados em moeda forte durante todo esse período).
Essa talvez seja a verdadeira maldição do CDI. Ele foi tão eficiente em proteger o patrimônio em moeda local que convenceu o investidor brasileiro de que não precisava diversificar seus riscos entre diferentes classes de ativos, países e moedas. Ao fazer isso, criou uma falsa sensação de segurança.
Se o Brasil não enfrentar seus desequilíbrios fiscais e não reduzir sua dependência da indexação, o maior risco do investidor deixará de ser a volatilidade dos mercados.
Será descobrir, tarde demais, que seu patrimônio acumulado em reais compra cada vez menos no resto do mundo — e, em um cenário extremo, até mesmo dentro do próprio Brasil.
O CDI salvou o paciente quando ele estava na UTI, mas nenhum paciente sobrevive vivendo para sempre dos medicamentos da terapia intensiva.
Construir patrimônio não significa vencer o CDI todos os meses. Significa preservar e ampliar o poder de compra durante décadas.
Renan Rego é sócio e CIO da G5 Partners.






