Novas Diretrizes em Tempos de Paz, peça de Bosco Brasil dirigida por Ariela Goldmann, causou comoção no início da década de 2000 e rendeu memoráveis desempenhos aos atores Dan Stulbach e Tony Ramos.
Mais de duas décadas depois, o texto ganha pela primeira vez uma montagem em São Paulo, que pode ser vista no Teatro Estúdio até fevereiro e chega ao Rio em 30 de abril, no Teatro Poeira.
Sob a direção de Eric Lenate, que divide o protagonismo com Fernando Billi, o espetáculo é um acontecimento raro que deve ser descoberto não só por um outro público como por quem se emocionou no passado e encontrará agora uma encenação revigorada.
Muitas peças abordam os traumas do nazismo e a luta de refugiados. Novas Diretrizes em Tempos de Paz, porém, emociona por um diferencial. O autor coloca a capacidade de sensibilização através da arte como o ponto apaziguador do conflito travado entre os personagens.
Não à toa se tornou um clássico do teatro brasileiro, com versões na Argentina, Chile, México, Portugal e Estados Unidos, além de uma adaptação cinematográfica realizada em 2009 por Daniel Filho.
Em abril de 1945, no fim da Segunda Guerra, o polonês Clausewitz (papel de Lenate, antes consagrado por Stulbach) desembarca no Brasil disposto a fugir do horror nazista e recomeçar a vida como agricultor. No setor de imigração, é interrogado por Segismundo (Billi, no personagem defendido por Ramos), que, desconfiado da sua fluência no português e das mãos delicadas que parecem nunca ter tocado em uma enxada, nega o visto
Impaciente com a insistência de Clausewitz, Segismundo impõe um desafio ao imigrante: ele tem dez minutos para contar a sua história e fazê-lo chorar, caso contrário, voltará para a Europa no próximo navio.
Se você ainda guarda na memória a encenação com Stulbach e Ramos, prepare-se porque a versão concebida por Lenate é melhor. Se o original era focado no texto e nas interpretações, o diretor agora supera com uma deslumbrante orquestração de elementos cênicos que só amplia a compreensão da obra sem desviar da essência.
Entre as surpresas está um cenário giratório, criado pelo próprio diretor, que coloca os atores em permanente movimento circular e, valorizado pela iluminação de Aline Sayuri, oferece diferentes pontos de vista dos dois personagens.
Uma ininterrupta ambientação sonora, assinada por L. P. Daniel, colabora para tensionar ainda mais a situação e interfere na compreensão dos diálogos – por isso, Lenate e Billi usam microfones o tempo inteiro.
Bosco Brasil ficou deslumbrado quando assistiu ao espetáculo, e disse que Lenate redimensionou a sua obra. “O palco giratório não é vaidade de um diretor que deseja mostrar pirotecnia,” o dramaturgo disse ao Brazil Journal. “O público jamais acompanha a história de um só lado, e a escolha cabe tão bem que você se desliga da movimentação.”
Lenate foi um dos tantos fãs emocionados que assistiram ao espetáculo no passado e garante que, depois da experiência de ver Stulbach e Ramos, definiu seu futuro como artista.
“São dois personagens em um estado de iminência extrema de suas vidas,” explica o ator e encenador. “É um texto que não perde a atualidade porque em qualquer época existem pessoas que procuram um lugar para viver e encontram dificuldades de serem recebidas.”
Formado pelo Centro de Pesquisa Teatral (CPT), do diretor Antunes Filho (1929-2019), Lenate tem 43 anos e dirigiu sucessos como Love, Love Love (2017), com Débora Falabella, e Misery (2022), protagonizada por Mel Lisboa e Marcello Airoldi. O currículo, entretanto, pouco contou, e ele teve que esperar três anos até que Bosco lhe cedesse os direitos autorais.
Desde 2021, Lenate estabelecia contatos trimestrais na esperança de que o dramaturgo quebrasse a resistência. Bosco, porém, tinha receio de que o momento político brasileiro interferisse na mensagem e só liberou o começo dos trabalhos em 2024. “Temia que o Segismundo recebesse uma leitura equivocada e o seu perdão reforçasse um pensamento antidemocrático em alta no país,” justifica.
Lenate e Billi aproveitaram a liberdade de produzir com recursos próprios para ensaiar por mais de um ano. Entre fevereiro e março, convidaram colegas para assistir ao trabalho e emitir opiniões que ajudassem na evolução do processo. Stulbach compareceu a uma destas sessões e saiu comovido.
No fim de agosto, Novas Diretrizes em Tempos de Paz subiu ao palco pela primeira vez na 17ª Fita – Festa Internacional de Teatro de Angra dos Reis. A apresentação, marcada por problemas técnicos de microfonia, serviu para intensificar os cuidados para que nada saísse errado na estreia oficial, em São Paulo, no fim de outubro. Mesmo assim, a peça recebeu indicações a seis prêmios do festival e venceu, por unanimidade, o de melhor cenário.
A atual versão de Novas Diretrizes em Tempos de Paz evidencia algo que se tornou exceção no teatro brasileiro. É um trabalho elaborado com calma e movido unicamente pelos interesses dos artistas envolvidos, sem a pressão de satisfazer patrocinadores ou cumprir uma data de estreia.
Do ponto de vista financeiro, para os realizadores, pode não ser o ideal, mas no resultado é visível o cuidado com os detalhes e a qualidade de composição dos intérpretes. Quem comparecer ao teatro vai perceber a diferença e, mesmo que as comparações sejam inevitáveis, ver Novas Diretrizes em Tempos de Paz, com Eric Lenate e Fernando Billi, é tão ou mais impactante que com Dan Stulbach e Tony Ramos.











