A New Wave — uma empresa brasileira que usa a tecnologia de micro-ondas para novas aplicações na mineração — acaba de levantar US$ 120 milhões numa rodada liderada pela Orion Resource Partners, uma gestora americana especializada no setor e em transição energética.
A Orion liderou a rodada, que também contou com o aporte dos atuais acionistas da New Wave — o fundador Gustavo Emina e a Lorinvest, a gestora da família Lorentzen, que fez fortuna com a Aracruz Celulose.
A captação vai financiar os esforços de P&D da New Wave, que ainda está em fase pré-operacional e não tem nenhuma receita.
A companhia foi fundada em 2019 depois que Emina e a Lorinvest venderam outro negócio que tinham juntos, a New Steel. A venda, feita para a Vale, saiu por US$ 500 milhões.
Com o dinheiro no bolso, a Lorinvest e Emina decidiram criar a New Wave, aplicando parte do conhecimento que já haviam adquirido.
A New Wave tem um centro de pesquisa em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, onde 70 pesquisadores trabalham desenvolvendo novas tecnologias para o setor de mineração.
A New Wave já é dona de quatro “patentes verdes” nesta área: soluções que reduzem as emissões de CO2, minimizam o consumo de água e promovem a economia circular. A característica comum entre elas é o uso inédito de micro-ondas para a segregação de diferentes minerais estratégicos.
Do centro de pesquisa de Duque de Caxias já saíram três soluções – em diferentes fases de implementação.
A primeira delas (e a mais avançada) é para o setor de alumínio.
A New Wave desenvolveu um processo que permite recuperar os minerais dos resíduos de bauxita, dando uma utilidade para um resíduo que hoje não serve para nada e precisa ser estocado pelas companhias produtoras de alumínio.
Para se ter uma ideia, são produzidas por ano 180 milhões de toneladas de resíduos de bauxita, das quais apenas 4 milhões são aproveitados. No total, existem 4 bilhões de toneladas de bauxita estocadas sem uso no mundo.
“O que fazemos é pegar esse resíduo de bauxita, misturar com carvão vegetal ou biomassa e colocar essa pelota num equipamento nosso que gera micro-ondas. Isso leva a uma transformação desse material, que dá origem a um ferro gusa ‘verde’,” Emina disse ao Brazil Journal.
Segundo ele, a New Wave já fechou um acordo com a Hydro Alunorte, uma das maiores refinarias de alumínio do Brasil, para construir uma planta de 50 mil toneladas de capacidade dentro da fábrica da Hydro em Barcarena, no Pará.
As obras desta planta começaram no ano passado e ela deve ficar pronta em julho do ano que vem.
A ideia dessa planta — que terá uma capacidade pequena e ainda não terá finalidade comercial — é funcionar como um teste inicial. No futuro, o plano é construir uma planta maior, de 4 milhões de toneladas, que seria capaz de processar todo o resíduo de bauxita gerado pela Hydro.
“Não posso sair direto de uma escala de laboratório para uma escala de 4 milhões de toneladas. Todos os projetos têm que passar por esses degraus. Então vamos fazer primeiro esse estágio industrial menor, até para ver os custos de rodar a planta, de energia, da matéria prima, e a qualidade dos produtos.”
Essa primeira planta vai custar R$ 240 milhões, e parte dos recursos da rodada serão direcionados para ela. (Outra parte vai financiar a construção de um novo centro de P&D, que deve custar em torno de R$ 150 milhões).
A segunda planta, de 4 milhões de toneladas, demandaria R$ 5,5 bilhões de investimentos, e provavelmente seria feita por meio de um consórcio, com a New Wave detendo uma participação minoritária no ativo.
No mercado de lítio, a New Wave também desenvolveu uma solução com um potencial relevante.
A companhia criou uma nova forma de processar o lítio bruto — transformando-o em hidróxido de lítio (usado como matéria prima das baterias de carros elétricos, por exemplo) — que o CEO diz que é 85% mais barato que o método usado na China.
“É um projeto muito promissor que pode colocar o Brasil com o menor custo operacional do planeta,” disse Emina, lembrando que o País hoje não agrega valor na cadeia produtiva de lítio, exportando praticamente tudo para a China na forma bruta.
Segundo Emina, essa tecnologia já foi comprovada em laboratório, mas está um pouco menos desenvolvida que a de alúminio.
No mercado de níquel, a New Wave também desenvolveu um novo processo — o menos avançado dos três — que permite transformar o níquel laterítico (o mineral em forma bruta) no hidróxido de níquel, que também é usado na produção de baterias.
O plano da New Wave é começar a gerar receitas a partir de 2028, quando ela vai começar a vender as licenças de uso da tecnologia e os projetos de engenharia para a construção das plantas. Além disso, ela pretende cobrar um royalties na perpetuidade em cima da receita que as fábricas que usam sua tecnologia vão gerar.
A projeção é que em 2032 a companhia esteja faturando US$ 300 milhões só com as receitas de royalties.
Emina diz que decidiu ir por esse caminho por dois motivos. “O primeiro é que esse é um negócio muito intensivo em capital. Se fossemos construir todas as fábricas, não íamos conseguir ter uma taxa de crescimento expressiva no médio prazo,” disse ele. “Além disso, as empresas de royalties negociam entre 20x a 25x EBITDA na Bolsa, e nossa meta é abrir o capital nos próximos quatro anos.”