A Natura acaba de anunciar uma série de mudanças em sua governança, com a saída dos três fundadores do conselho de administração, a troca do chairman e a entrada da Advent como acionista.

Luiz Seabra, Guilherme Leal e Pedro Passos, que fundaram a empresa em 1969, estão saindo do board pela primeira vez e passarão a integrar um conselho consultivo (sem funções deliberativas), que também incluirá Fábio Barbosa, o atual chairman que também está deixando o conselho.

Fábio será substituído por Alessandro Carlucci, que foi CEO da Natura de 2004 a 2014 e já fazia parte do conselho.

Já os três fundadores serão substituídos por Luiz Guerra, que cuida do family office de Luiz Seabra;  Pedro Villares, que lidera o family office de Guilherme Leal; e Guilherme Passos, o filho de Pedro. 

Fabio disse ao Brazil Journal que as mudanças têm a ver com o novo momento da companhia, que, depois de concluir uma simplificação dos negócios (com a venda de diversos ativos) e uma desalavancagem significativa, agora precisa de perfis com mais conhecimento digital e operacional.

“Esse perfil mais financeiro, que foi mais necessário para o momento anterior da companhia, agora é substituído por um perfil mais digital e de gestão, que é o que vai ajudar a empresa nessa nova fase de retomar o crescimento na América Latina,” disse o executivo.

Isso se refletiu em outras duas mudanças no conselho. Bruno Rocha, o cofundador da Dynamo, e Gilberto Mifano, que foi CEO da Bovespa por anos, estão deixando o conselho, dando lugar a Flávia Almeida e Gabriela Comazzetto.

Flávia passou 14 anos na McKinsey, onde se tornou a primeira mulher brasileira a virar sócia, e depois trabalhou outros 12 anos na Península Participações como CEO da holding de investimentos de Abílio Diniz de 2019 a 2024.

Já Gabriela tem expertise em tecnologia. Teve passagens pela AmBev, Microsoft e Twitter e, mais recentemente, foi diretora de negócios na Meta (a dona do Facebook e Instagram), cuidando das verticais de varejo e e-commerce, e diretora geral de global business solutions para a América Latina no TikTok, liderando operações em 16 países.

Duda Kertesz e João Paulo Ferreira, o CEO da Natura, que já eram conselheiros, continuarão no board.

As mudanças na governança já eram planejadas desde 2022, quando Fábio assumiu a presidência do conselho com a missão de vender os ativos problemáticos da Natura (a Aesop, Avon International, The Body Shop e a operação na Rússia), além de resolver o litígio nos EUA envolvendo um talco da Avon.

O plano era que assim que todos os problemas fossem sanados, ele deixaria o conselho, assim como os fundadores.

Agora esse momento chegou, com a alavancagem da Natura caindo de 6x EBITDA para 1,5x no final do quarto tri e a companhia entregando um lucro líquido de mais de R$ 1 bilhão.

“Essa mudança na governança traz conhecimento e competências que apoiam esse novo ciclo, sem abrir mão do acesso aos fundadores e ao Fábio, por meio do comitê consultivo,” disse João Paulo, o CEO. “É um desenho muito bom para essa nova fase da empresa, focada em inovação e crescimento na América Latina.”

O novo momento da empresa atraiu o interesse da Advent. A gestora de private equity se comprometeu a comprar de 8% a 10% das ações em transações no mercado, com o objetivo de chegar a um preço médio de R$ 9,75 por ação nos próximos seis meses. 

Se atingir essa participação, o acordo é que a Advent terá direito a indicar dois conselheiros adicionais, elevando o número de assentos no conselho dos 9 atuais para 11. 

Caso chegue a essa participação, a Advent também se tornaria o maior acionista do free float da companhia, ultrapassando a Dynamo, que hoje tem cerca de 8% das ações.

Os três fundadores têm 38% das ações e não pretendem vender, segundo Fábio. Junto com o anúncio da saída do conselho, eles anunciaram também que estão renovando o acordo de acionistas por mais 10 anos. O acordo entre eles havia vencido há dois anos, e foi renovado primeiro por um ano e depois por mais um.

Além de participar do conselho consultivo, os três fundadores também farão parte dos comitês de produto, inovação e sustentabilidade. Já Fábio integrará o comitê de finanças. 

A ação da Natura negocia hoje a R$ 9,24, com um múltiplo de 11x seu lucro estimado para 2026 e a 5,5x EBITDA. A empresa vale R$ 12,7 bilhões na Bolsa.