Um processo de sucessão de uma grande empresa já é, por si só, uma situação complexa. São milhares de interesses, dos mais legítimos aos claramente escusos, que dão ao processo um andamento longo, arrastado e complicado.
Some-se a isso brigas entre familiares, disputas entre sócios e o escrutínio por parte de dezenas de pessoas, internas e externas, com maior ou menor envolvimento com o andamento das decisões, e temos o caso peculiar das Casas Pernambucanas, narrado em O Testamento – O Segredo de Anita Harley, em exibição na Globoplay.
O documentário reúne tudo isso e tantos outros ingredientes que, se tivesse sido roteirizado por alguém de maneira ficcional, daria a impressão de exagero ou inverossimilhança.
Gigantesco patrimônio empresarial e afetivo do País, as Pernambucanas são um dos maiores fenômenos do varejo brasileiro.
A rede centenária atraía milhares de clientes que formavam filas imensas atrás de suas ofertas, e sempre se manteve longe de qualquer polêmica ou escândalo.
Mas tudo começaria a mudar em 1990, quando Anita Harley assumiu a presidência do grupo logo após a morte de sua mãe, a empresária Helena Lundgren.
Ativa e discreta, a herdeira passou a exercer seu poder ao comandar um império estimado em R$ 2 bilhões. Avessa a entrevistas e também a aparições em público, Anita levava uma vida reservada, quase misteriosa. Também imprimiu ao comando da empresa uma governança pouco ortodoxa. Como não levava uma vida convencional, muitas vezes acordando à tarde, trocava o dia pela noite e, com frequência, convocava reuniões de trabalho madrugada adentro, quase sempre sem precisar se ausentar do hotel onde morava.
Uma nova reviravolta na trajetória da empresa ocorreria a partir de novembro de 2016, quando a empresária, então com 69 anos, sofreu um AVC e entrou em coma, situação na qual permanece até hoje e que serviu de inspiração para o surgimento da série.
Fora do ar, Anita virou o centro nervoso de uma disputa jurídica por sua curatela bilionária.
As cinco partes em que o documentário é dividido, cada qual com cerca de 45 minutos, ressaltam os personagens, as brigas, as estratégias e, principalmente, as reviravoltas.
Entre atuações canastronas, revoltadas e frequentemente hilárias, o elenco não permite ao espectador formar uma opinião mais clara: o mocinho(a) de uma sequência logo se transforma em vilão(ã) na seguinte.
Neste cast absurdo, merecem destaque as irmãs Juliana e Andrea Lundgren, primas de Anita e responsáveis pelos melhores comentários – quase todos maldosos – sobre os demais protagonistas.
Um deles se destaca: Sônia Soares, autobatizada de Suzuki, em referência ao musical Madame Butterfly, moradora da casa onde Anita passou seus últimos dias de lucidez e que se apresenta como companheira de Anita.
A afirmação de Suzuki não encontra apoio entre muitos que cercavam a bilionária, inclusive a cineasta Tizuka Yamazaki, amiga íntima de Anita. Para eles, Suzuki não passava de uma dama de companhia, sem função muito clara no gigantesco staff montado por Anita e que só veio cobrar o que diz lhe ser devido depois da internação da empresária.
Porém, a intimidade de Suzuki com Anita é inegável, como comprovam muitas das imagens divulgadas (em festas, passeios e viagens) e o fato de ela residir na imensa mansão de 96 cômodos adquirida pela herdeira depois que ela deixou de ocupar a cobertura de um hotel, em 2009. O imóvel, avaliado em R$ 50 milhões, é parte da batalha judicial.
O enredo vai se complicando com a entrada de novos personagens: o marido de Suzuki, Vicente Miceli, o filho do casal, Arthur, apontado como filho socioafetivo da empresária, um advogado que abandonou a causa, um outro advogado, este de Suzuki, que chegou à presidência das Pernambucanas, e a secretária e principal assessora de Anita, Cristine Rodrigues, que, lá pelas tantas, também decide revelar que teve uma relação afetiva com a chefe.
Cristine tem ainda um aspecto mais importante: foi em nome dela que Anita deixou um documento conhecido como testamento vital. Nele, a empresária indica que a secretária poderia tomar decisões caso ela perdesse a capacidade de se manifestar. Depois de contestada por outras pessoas envolvidas na disputa, a validade desse documento foi desconsiderada pela Justiça
Também é surpreendente descobrir que toda essa história rocambolesca caiu quase que por acaso no colo de Camila Appel, a diretora da série.
Com o pai internado no Sírio-Libanês em 2021, Camila passou a visitar com frequência o hospital. Chamou-lhe a atenção um quarto à frente, que tinha a presença constante de seguranças. A partir de então, Camila começou a investigar, descobrir o perfil dos personagens envolvidos e ligar os pontos da trama. O primeiro esboço veio em forma de uma reportagem no Fantástico no ano seguinte.
Os 15 minutos da matéria ainda assim pareceram insuficientes a Camila. A boa repercussão que o caso teve estimulou a documentarista a ampliar o projeto e a transformá-lo numa série.
Como cada capítulo não consegue fornecer um desfecho e como os personagens e as situações vão se acumulando, Camila optou por participar da série. Ela serve como um fio condutor, narrando o desenvolvimento da história e ajudando na melhor percepção dos vários ângulos da trama.
Em novembro, a internação de Anita completará uma década. O silêncio em que ela permanece e a falta de qualquer perspectiva de reversão tornam impossível o esclarecimento de tantas dúvidas.
Assim como no documentário, o desfecho fora das telas também está distante, e novos capítulos ainda estão sendo escritos.











