A Nagro – uma fintech brasileira que dá crédito para pequenos e médios produtores rurais – acaba de conseguir o selo de aprovação de dois gigantes do setor: o Rabobank, o maior banco do agronegócio no mundo, e o Itaú, o maior banco comercial da América Latina.
Os dois bancos bancaram a Série B da startup, fundada em 2020 por três empreendedores com background no agro: Gustavo Alves, Leonardo Rodovalho e Vinícius Dutra.
O Rabobank, que liderou a rodada, investiu por meio do Rabo Partnership, seu braço de venture capital. Já o Itaú, que já era investidor e dobrou a aposta, aportou por meio da Itaú Ventures (o novo nome da Kinea Ventures).
A rodada de R$ 50 milhões se soma a outros R$ 47 milhões que a Nagro já havia captado desde que foi fundada. O valuation não foi revelado.
A Nagro atende majoritariamente produtores rurais com receita de R$ 500 mil a R$ 20 milhões por ano. Esse perfil de empresa tem acesso a crédito basicamente de duas formas: pelo crédito subsidiado do Plano Safra ou, em casos mais pontuais, via barter (o crédito dado pelos fornecedores de insumo).

A Nagro surgiu com a visão de ser um crédito complementar a essas duas linhas, dando fôlego aos produtores para tocar o dia-a-dia da operação. Hoje esses produtores não têm acesso aos bancões porque a conta não fecha para eles.
“Como o cheque é muito pequeno nessas operações, o custo de servir que os bancões têm não compensa o risco financeiro,” Gustavo Alves, o cofundador da Nagro, disse ao Brazil Journal.
“Nossa ideia foi usar tecnologia para reduzir muito esse custo de servir e viabilizar essas transações. Percebemos que era caro servir porque faltavam informações que dessem credibilidade ao rating de risco desses produtores.”
Para resolver esse problema, a Nagro começou a estruturar fontes de dados públicos e privados que forneçam uma visão completa sobre o produtor rural.
“Trazemos toda a informação cadastral do cliente, incluindo os grupos econômicos familiares, que é algo muito comum no agro. Também mostramos uma visão completa do histórico dele como produtor rural, se teve migração regional ou de atividade agrícola, e toda a visão jurídica, com os históricos de litígios,” disse Vinícius, o outro fundador.
“Também trazemos uma visão de patrimônio dos produtores, com visão dos imóveis rurais e imagens de satélite para ver há quantos anos está acontecendo a atividade lá.”
Com todas essas informações, a Nagro também consegue projetar quanto aquele produtor consegue efetivamente gerar de resultado, quanto ele tem de dívida para pagar e quanto o patrimônio dele cobre essa dívida.
Tanto a obtenção das informações quanto a análise delas é feita de forma automatizada por uma tecnologia criada pela startup, conseguindo entregar um relatório pronto em poucas horas.
Além de usar essas informações para dar crédito direto aos produtores – com funding de dois Fiagros que a fintech captou – a Nagro também criou um segundo negócio, o AgRisk, que oferece as mesmas ferramentas que ela usa para fazer suas análises a outros clientes.
Essa vertical já atende 1.400 empresas que dão crédito para o agro, incluindo o Banco Cargill e a Coopercitrus, uma das maiores cooperativas do Brasil.
A Nagro não abre seu faturamento, mas diz que concedeu R$ 115 milhões em crédito no ano passado, um montante que deve subir para cerca de R$ 200 milhões este ano.
Segundo os fundadores, a receita cresceu 50% no ano passado, quando a fintech teve EBITDA positivo pela primeira vez em sua história. “No ano passado, seguramos um pouco o crescimento para focar em rentabilidade,” disse Gustavo. “Com a rodada, queremos voltar a acelerar, mas mantendo o EBITDA positivo.”
A startup quer usar os recursos da rodada para investir mais em tecnologia, principalmente no uso de inteligência artificial na análise de crédito para melhorar a plataforma da AgRisk, incluindo novos produtos e ferramentas, e para reforçar o caixa num momento desafiador para o setor.
“O agro é cíclico. A cada cinco anos vemos flutuações. O momento atual é de reestruturação das carteiras, estratégias e do posicionamento. Estamos num momento ruim há alguns anos, mas logo ele deve passar,” disse Gustavo.
O fundador disse ainda que a Nagro não tem sofrido tanto porque tem uma estratégia anticíclica.
“Como temos dois negócios, a fintech e a AgRisk, conseguimos passar melhor por esses momentos. Num momento bom de mercado, a fintech performa muito bem. Já num momento de restrição de crédito e aumento de risco, quando a fintech vai mal, a AgRisk se beneficia, porque as empresas investem mais em gestão de risco e de processos.”






