A Moss — uma startup de venda de créditos de carbono — acaba de levantar US$ 10 milhões para escalar seu negócio e começar a atuar também na geração dos créditos, verticalizando sua operação.

A Série A foi coliderada por dois fundos focados em agtech: o brasileiro SP Ventures e o americano Acre.VC, que tem a Syngenta entre seus investidores. 

Também participaram a Jive, a gestora de ativos distressed; a Arrington Capital, do fundador do TechCrunch; e a The Craftory, da G2D, que já havia investido na rodada anterior. 

A Moss já havia levantado seed capital junto a investidores como David Feffer, o controlador da Suzano; John Pfeffer, ex-sócio do KKR e conhecido mais recentemente por seu investimento em criptomoedas; Carlos de Barros, o ex-CEO da Dasa; Rafael Horta, o ex-sócio do BTG; além da Loyall Capital Partners. 

Basicamente, a Moss compra e depois revende os chamados créditos de carbono, uma espécie de comprovante digital de que uma emissão de CO2 foi evitada. 

No Brasil, esses créditos são gerados principalmente em fazendas na Amazônia e certificados por uma companhia independente; cada crédito equivale a 1 tonelada de CO2 não emitido na atmosfera.

A Moss opera tanto no B2B quanto no B2C. 

Ela vende os créditos direto para empresas como GOL, C6, iFood e Arezzo — que os compram para compensar suas emissões; e também ‘tokeniza’ os créditos para vendê-los para investidores em exchanges como Mercado Bitcoin, Coinbase e Gemini. 

O token da Moss — batizado de MCO2 — já é um dos maiores tokens de créditos de carbono do mundo, com uma liquidez diária de mais de US$ 1 milhão, segundo a companhia. 

A empresa foi fundada em março de 2020 por Luis Felipe Adaime, um ex-analista e gestor de ações com passagens pelo Credit Suisse, BRZ Investimentos e York Capital.  

De lá pra cá, a Moss já transacionou mais de US$ 27 milhões em créditos de carbono, a maior parte disso no ano passado (US$ 21 mi). 

Mas a receita da companhia é uma fração das vendas — US$ 8 milhões em 2021 — porque ela compra os créditos por meio de um FIP que tem outros investidores. 

Este ano, a expectativa de Adaime é fazer uma receita entre US$ 20 milhões e US$ 25 milhões. 

Segundo ele, a Moss gera lucro desde o primeiro dia. O resultado vem do spread entre o custo que ela paga para comprar os créditos de carbono das fazendas e o preço a que ela vende para os clientes finais.

Nos últimos anos, a demanda por créditos de carbono cresceu exponencialmente, mas a oferta não acompanhou. Como resultado, o preço explodiu. 

Em 2020, cada crédito de carbono era vendido por cerca de US$ 5 no atacado. Hoje, o mesmo crédito não sai por menos de US$ 15. No varejo, o preço no Brasil gira em torno de US$ 25, mas já bateu mais de US$ 80 na Europa.

Com a capitalização, a Moss quer dar gás a uma nova estratégia que começou recentemente: comprar participações em fazendas, verticalizando seu negócio. 

A Moss faz parcerias com empresários que já são donos de fazendas na Amazônia: o sócio entra com a fazenda, e ela com o know-how para fazer a homologação no registro global de crédito. A startup também cobre os custos deste processo, que giram em torno de US$ 500 mil por fazenda. Por enquanto, a Moss já é sócia de 10 propriedades.

Este modelo aumenta o spread das operações, já que a startup não precisa mais comprar os créditos, mas também aumenta o risco. 

“Você nunca sabe exatamente quanto vai gerar de crédito, porque tem muitas variáveis envolvidas,” Adaime disse ao Brazil Journal. “Você pode projetar uma geração para a fazenda que depois acaba não se concretizando.” 

A geração de crédito de carbono é calculada de duas formas: fazendo o reflorestamento das áreas (ou seja, plantando novas árvores que vão capturar CO2 do ar), ou evitando o desmatamento de florestas já existentes.

Nesse segundo caso — de longe, o mais comum no Brasil — a quantidade de crédito gerado é calculada com base no desmatamento das áreas vizinhas. 

“Essa é uma das principais variáveis. Se o seu vizinho desmatar menos, o valor relativo da sua preservação diminui, impactando seu resultado,” disse ele. “Além disso, existem os riscos legais: às vezes você acha que vai conseguir usar uma área inteira, mas não consegue por questões fundiárias.”

Além dos créditos de carbono, a Moss tem monetizado algumas dessas fazendas com a venda de NFTs (non-fungible tokens). Na prática, ela pega as fazendas, divide em vários pedacinhos e vende para investidores em forma de NFTs.

O Brasil é disparado o país com a maior reserva de crédito de carbono do mundo — nossa reserva é maior que a do segundo ao décimo colocado, juntos — e tem potencial para certificar 1,5 bilhão de créditos de carbono por ano, segundo um estudo da McKinsey.

“Se você colocar isso a um preço de US$ 10, seriam US$ 15 bilhões a mais para a economia,” disse Adaime. “É quase 1% do PIB brasileiro!”

Mas o Brasil está longe de explorar toda essa potencialidade. Em 2019, o País certificou apenas US$ 5 milhões em créditos de carbono, de um total de US$ 100 milhões certificados no mundo. 

No ano passado, nosso share global dobrou, mas continua pequeno: o Brasil certificou US$ 25 milhões de um total de US$ 250 mi.