Investidores que conseguiram comprar uma emissão concorrida de R$ 675 milhões em Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) da Duratex no fim de março acordaram com uma surpresa no começo deste mês.

Os títulos, com vencimento em seis anos, duraram pouco mais de seis meses: na primeira semana de outubro, o dinheiro já estava de volta na conta dos investidores. (Por coincidência, eles tinham sido emitidos oficialmente em 1º de abril, o dia da mentira).

Ao que tudo indica, a vida curta do título teve a ver com uma trapalhada do departamento financeiro da Duratex, que, num hiato entre a saída de um CFO e a entrada de outro, acabou jogando fora uma emissão barata (98% do CDI !) nesses tempos bicudos de crédito escasso. 

Para uma empresa que tem como controlador a Itaúsa, com 40% das ações, e três membros da família Setúbal no conselho, o ‘faux pas’ é difícil de entender.

A história começa com o balanço do segundo trimestre, quando a fabricante de painéis de madeira rompeu uma das cláusulas financeiras previstas numa emissão de debêntures conversíveis comprada pela BNDESPar em 2012.

A escritura previa que o índice de cobertura financeira (EBITDA/despesa financeira líquida) não poderia ficar abaixo de três vezes, mas, entre abril e junho, essa relação caíra para 2,63x.

Como sempre acontece nas quebras de ‘covenant’ – que se tornaram rotina em meio à recessão – credor e devedor sentaram para conversar: o BNDES pediu uma comissão (praxe nesses casos) para dar o seu ‘waiver’. 

Alguém na Duratex fez as contas e concluiu: como o vencimento da debênture estava próximo, em janeiro de 2017, valia mais à pena antecipar o pagamento em quatro meses. Afinal, estava-se falando de algo como R$ 140 milhões, valor confortável frente ao R$ 1,37 bilhão em caixa no fim de junho.

O que aparentemente ninguém se lembrou é que as CRAs emitidas em abril tinham uma cláusula de ‘cross default’:  ou seja, o vencimento antecipado de qualquer outra dívida (como as debêntures) faria com que os CRAs tivessem que ser resgatados imediatamente.  Oops!

Procurada, a empresa não quis se pronunciar. Ressaltou apenas o que estava no fato relevante que comunicou o vencimento dos CRAs, em 3 de outubro: “Ao realizar o pagamento destes títulos, a Duratex se vale de sua boa condição de liquidez, honrando integralmente as cláusulas dos mencionados contratos.”

O lapso aconteceu durante uma transição na diretoria financeira da empresa. Flavio Donatelli, que estava no cargo há sete anos, renunciou em 5 de agosto. Ele vinha da Satipel, que se fundiu com a Duratex em 2009.

Seu substituto, Henrique Haddad – ex-CFO da Whirpool para a América Latina – assumiu o cargo apenas em 22 de setembro, um dia antes do BNDES declarar o vencimento antecipado das debêntures conversíveis, dando início ao efeito dominó.

A distração pode custar caro à Duratex.

Os CRAs representavam mais da metade do caixa da companhia. Após o resgate desses títulos e das debêntures, os recursos livres devem ficar em cerca de R$ 560 milhões. 

De acordo com o balanço do segundo trimestre, R$ 410 milhões em empréstimos vencem até o fim de 2016 e outros R$ 630 milhões em 2017 (ou cerca de R$ 500 milhões, se descontado o pagamento antecipado das debêntures conversíveis, que antes estava previsto para janeiro).

Ou seja, a menos que gere uma enxurrada de caixa saia das torneiras da Deca, o que parece improvável no atual cenário, a Duratex vai ter que recorrer de novo ao mercado.