Um ano atrás, Oskar Metsavaht recebeu um convite da Moncler para criar a quatro mãos os uniformes da equipe brasileira para as cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos de Inverno.
Mas a participação da Osklen no processo criativo foi divulgada apenas 12 horas antes da abertura oficial do evento.
Quando o Comitê Olímpico do Brasil (COB) anunciou a Moncler como parceira oficial do Time Brasil e patrocinadora técnica da Confederação Brasileira de Desportos na Neve, em dezembro, foi divulgada apenas a atuação de Lucas Pinheiro Braathen, o líder da equipe brasileira de esqui alpino e embaixador da Moncler, no desenvolvimento do traje de competição.
“Trabalhamos juntos em vários momentos e foi um diálogo fluido, inclusive com a equipe da Moncler,” conta Oskar.
O dono da Osklen entende de neve tanto quanto de moda. Em 1986, quando tinha 25 anos, integrou uma expedição ao Aconcágua, na Cordilheira dos Andes. Era o médico da equipe e desenvolveu, ele mesmo, oito casacos para suportar o frio.
Era o início do que viria a se tornar a Osklen em 1989.
Depois, em 1997, Oskar representou o Brasil na prova de Snowboard Slalom Gigante da Federação Internacional de Esqui (FIS) na América do Sul, conquistando o terceiro lugar em Valle Nevado, no Chile.

Oskar fez vários esboços até chegar aos cerca de 25 itens que compõem a coleção que veste a delegação brasileira. “Cheguei a experimentar as cores azul claro, amarelo e verde, além de branco e marinho”, afirmou ele sobre o desenvolvimento dos croquis, refinados ao longo do processo de design.
Minimalista, buscou um equilíbrio entre a sofisticação e a cultura alpina para o visual das peças, ainda que a imagem mais conhecida do Brasil seja a da exuberância. “Estamos entrando em um novo universo esportivo, não adiantava vir com um Brasil ‘carnavalesco,’” disse o designer-empresário.
Daí a escolha do branco para os dois principais looks, destinados aos porta-bandeiras Braathen e Nicole Silveira. “A cor é como uma folha de papel pronta para ganhar a interferência da cor e, também, é como uma montanha de neve onde o snowboarder risca um desenho,” disse Oskar.
As capas usadas por Braathen e Silveira reinterpretam um ícone da Moncler: a lendária jaqueta Karakorum, originalmente criada para os alpinistas italianos Achille Compagnoni e Lino Lacedelli durante sua histórica ascensão ao K2, ou “Montanha Selvagem”, como é conhecida a segunda montanha mais alta do mundo, localizada na cordilheira Caracórum, na fronteira Paquistão-China.
“A bandeira veio depois, como resultado do desejo de incluir elementos inesperados. E funcionou. Havia combinado com o Lucas dele entrar [no desfile da delegação] com a capa fechada e só revelar o interior aos poucos,” disse Oskar, resgatando uma performance comum aos desfiles de moda.
A coleção foi confeccionada em nylon reciclado laqueado, uma marca registrada da Moncler, combinando desempenho técnico com presença cerimonial. Além das roupas principais em branco e verde, os outros conjuntos são em azul e verde. Todos os uniformes são finalizados com a estrela brasileira, o brasão do Comitê Olímpico Brasileiro e o logotipo da Moncler. O calçado é a bota de inverno Altive da marca.
Para a Moncler, a colaboração dialoga com o retorno às desafiadoras pistas italianas de inverno. Os Jogos deste ano acontecem quase seis décadas depois da última participação olímpica da Moncler em Grenoble, na França, cidade próxima da vila Monestier-de-Clermont, cuja abreviação forma o nome da marca fundada ali por René Ramillon e André Vincent em 1952 e adquirida por Remo Ruffini em 2003. De lá pra cá, a Moncler evoluiu de marca de equipamentos de alto desempenho para montanhismo a um ícone da moda de luxo.
Para a Oskar, a parceria é um reflexo do atual momento de sua marca, a Osklen. A grife carioca está empenhada em construir no imaginário brasileiro uma interseção entre luxo, inovação e sustentabilidade.
Com cerca de 90% de seus produtos feitos no Brasil, a Osklen tem investido no design das lojas, melhorado a qualidade da matéria-prima, apostado em peças mais exclusivas e complexas – como as linhas Superlight, casual tecnológico em nylon reciclável, e a esportiva TRKK, que deve retomar em breve os casacos de neve – sem abrir mão de fibras naturais, como o algodão orgânico. A Osklen foi uma das marcas pioneiras em sustentabilidade no mundo, ao lado das grifes Patagonia e Stella McCartney.
A equipe de Oskar está mais enxuta – e afinada com o novo posicionamento. Um exemplo é Felipe Medici, que trabalha no grupo desde 2011 e assumiu recentemente como CEO. Medici está focado na gestão do negócio, deixando Oskar com mais tempo para atuar como diretor de criação e estilo, além de fazer a direção estratégica.
Em meados de 2024, a Osklen relançou seu e-commerce com foco na experiência omnichannel, levando a um crescimento de 32% nas vendas online.
O EBITDA de R$ 57 milhões em 2025 mais que dobrou em relação a 2021, o ano em que a Osklen deixou a Alpargatas e passou a fazer parte do Dass – que também possui a Fila, Umbro e New Balance – e Oskar reassumiu a gestão estratégica e criativa. Na época, a Osklen fazia um EBITDA de R$ 21 milhões.
Para o futuro, Oskar pretende afinar ainda mais a participação dos três filhos – Caetana, Thomas e Felipe – no dia a dia da marca e do hotel Janeiro, no Leblon, que junto com o estúdio de arte e o Institutoe formam o OM.Group. Felipe, o caçula, é o mais provável sucessor do pai na direção criativa.












