A oferta de acesso gratuito e código aberto está colocando a China à frente na corrida pela adoção da inteligência artificial em países emergentes do chamado Sul Global – particularmente na África.

O presidente da Microsoft, Brad Smith, disse ao Financial Times que a rápida adoção da tecnologia da startup chinesa DeepSeek em mercados emergentes revela o tipo de competição que as empresas americanas enfrentam ao redor do mundo.

“Precisamos reconhecer que, neste momento, diferentemente de um ano atrás, a China possui um modelo de código aberto que é competitivo,” afirmou o executivo.

De acordo com Smith, as companhias chinesas se beneficiam também de subsídios do governo e assim conseguem praticar preços mais baixos que as americanas pelos serviços pagos.

Em um relatório sobre a adoção internacional de AI, a Microsoft indicou que há uma divisão crescente: o avanço tem sido mais rápido no Norte Global, onde cerca de 25% da população em idade ativa utiliza as ferramentas de AI. No Sul Global, o percentual está em 14%.

Segundo o estudo da Microsoft, a adoção da tecnologia tem sido mais acelerada em países que investiram em infraestrutura digital, capacitação em AI e uso pelo governo, com destaque para Emirados Árabes Unidos, Singapura, Noruega, Irlanda, França e Espanha – todos com uma difusão superior a 40% entre a população adulta. No Brasil, o percentual não chega a 20%.

No documento, a Microsoft ressalta que o sucesso da DeepSeek – cuja ferramenta começou a ganhar o mundo no início de 2025 – teve um impacto significativo nas tendências globais de adoção da tecnologia.

“Ao lançar seu modelo sob uma licença de código aberto e oferecer um chatbot totalmente gratuito, a DeepSeek eliminou barreiras financeiras e técnicas que limitam o acesso à AI avançada,” diz o relatório.

A combinação de ‘abertura e acessibilidade’ permitiu que a DeepSeek ganhasse força em mercados pouco atendidos pelas plataformas americanas.

O aplicativo chinês ganhou usuários rapidamente em países onde o acesso à internet é rigorosamente controlado, como China, Rússia, Irã, Cuba e Bielorrússia.

“Mas talvez ainda mais notável seja a crescente popularidade da DeepSeek em toda a África, onde é impulsionada por promoções estratégicas e parcerias com empresas como a Huawei,” afirma o relatório.

As empresas americanas privilegiam o modelo de código fechado e cobrança pelos seus serviços a partir de um volume de uso. Os modelos de ponta, quase sempre, só estão disponíveis para quem possui assinaturas – sejam pessoais ou corporativas.

É uma equação difícil de ficar de pé em países pobres. Por causa dos custos envolvidos na construção da infraestrutura de AI, Smith defendeu que haja mais investimentos de bancos internacionais de desenvolvimento e linhas de crédito específicas para construir data centers e subsidiar a eletricidade.

“Se dependermos apenas de fluxos de capital privado, não creio que isso seja suficiente para competir com um concorrente que recebe subsídios, como é o caso das empresas chinesas, especialmente nessas regiões do mundo”, disse Smith.

Para o executivo, a crescente disparidade Norte-Sul é “motivo de preocupação” – e é provável que ela se perpetue.

“Se as empresas de tecnologia americanas ou os governos ocidentais fecharem os olhos para o futuro na África, estariam fechando os olhos para o futuro do mundo de forma mais ampla,” afirmou. “Acho que isso seria um erro grave.”

 

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