Até pouco tempo, quando uma construtora tinha que licenciar uma obra na Prefeitura de São Paulo, o processo era simplesmente kafkiano.

Primeiro, alguém tinha que ir fisicamente ao Edifício Martinelli, a sede da Prefeitura no centro da cidade, munido de um calhamaço de papéis — que incluíam desde os projetos até dezenas de documentos do proprietário e do engenheiro responsável.

Depois, esses documentos passavam por uma análise prévia, onde um funcionário da prefeitura checava se o projeto estava numa área de preservação, se o imóvel tinha alguma dívida, ou se era objeto de tombamento histórico. 

Com esse ‘raio-x’ pronto, um outro funcionário da prefeitura averiguava se o projeto estava de acordo com as leis estaduais e municipais; caso contrário, pedia mudanças ao engenheiro — que tinha que voltar novamente ao Edifício Martinelli para buscar a papelada.

O saldo era um processo moroso e ineficiente que levava em média seis meses — causando dor de cabeça e perdas milionárias aos dois lados: prefeitura e incorporadoras.

De julho pra cá, isso mudou. 

Ao adotar o software da Aprova Digital, a cidade digitalizou boa parte dessas etapas e reduziu drasticamente o prazo de análise dos licenciamentos, que, em muitos casos, agora podem ser feitos em 15 dias.  

“Nossa plataforma se integra aos sistemas legados das Secretarias, automatizando os processos e criando uma interface de contato com o cidadão, que não vai mais precisar da assistência do atendente,” Marco Zanatta, o fundador e CEO, disse ao Brazil Journal.

Fundada há quatro anos em Cascavel, no Paraná, a Aprova acaba de receber um aporte de R$ 4 milhões da Astella Investimentos. 

A rodada de seed money é a segunda da Astella numa govtech, um nicho ainda incipiente do ecossistema de startups mas que está ganhando cada vez mais atenção. Há três meses, a gestora investiu R$ 8 milhões na Gove, um software de BI para as finanças públicas. 

Marco explica que as prefeituras contratam o sistema da Aprova por meio de licitação, e depois pagam uma mensalidade que varia de acordo com o escopo do projeto. 

A startup já presta o serviço para 25 prefeituras e desenvolveu sistemas capazes de automatizar os processos de praticamente todas as Secretarias Municipais, da Habitação ao Transporte, passando pela Cultura. 

As duas exceções são as pastas de Saúde e Educação, que a startup deve desenvolver produtos nos próximos meses com os recursos da capitalização.  

Nas licitações municipais, a Aprova compete com empresas como a Neomind, que tem um produto específico voltado para esse mercado. 

Segundo Marco, enquanto a concorrência cobra cerca de R$ 100 mil por mês, a Aprova consegue cobrar ao redor de R$ 7 mil pelo mesmo serviço.

No ano passado, a Aprova multiplicou seu faturamento por 3 e chegou no breakeven. Para este ano, a expectativa é dobrar a receita. 

“Com a pandemia, as prefeituras estão numa pegada forte de digitalizar seus serviços. Além disso, entraram vários prefeitos novos que estão querendo aumentar a eficiência da máquina pública,” diz o fundador.

Segundo ele, todas as 5.570 prefeituras do Brasil têm um orçamento somado de mais de R$ 1 trilhão — e boa parte delas ainda tem uma carência muito grande quando o assunto é tecnologia.

“É um mercado endereçável gigantesco e pouco explorado,” diz ele. “A transformação digital do Brasil precisa começar pelas prefeituras, porque é lá onde o cidadão tem o contato mais direto e próximo com o Poder Público.”